
Essas mulheres que passam pelo trem,
com pressa, com sede, que sabem para onde vão
e não se importam de onde veem,
são mulheres que deitam na rede,
social e de crochê,
tem um estilo passional,
nada a ver com o que pede o social,
passam de rasteirinha,
as vezes, de fininho,
sem quererem aparecer,
tão fininhas de dar gosto.
No maior poeta do trem.
São mulheres comuns,
vivem uma vida comum,
como qualquer um,
usam Louis Voulton para disfarçarem
a pobreza de do que já passaram,
ou para enaltecer o que não possuem.
Mulheres loiras de perfumaria,
atendem pelo nome de Maria
ou de Joaquina,
são mulheres como eu e você.
Atravessam a passarela sem moda alguma,
sem destino também,
são morenas de sofrimento,
são ruivas de vergonhas,
são negras de alma branca
ou negras de perfil afro.
São mulheres que demonstram uma vida ultrapassada,
deixam suas panelas na janela
para aquecerem um brilho no alumínio gasto,
usam lentes para mudarem o olhar entristecido
óculos para esconderem um sorriso,
batom vermelho
e esmalte combinando
com o vestido desbotado e mal passado.
São avós, mães, tias, irmãs, de sangue ou de caridade.
Companheiras de labuta,
uma lutas sem igual.
Parceiras e parteiras
de vindas ao mundo desumano.
Sensuais e desiguais,
completas e insatisfeitas.
Satisfeitas e incompletas.
Mulheres que o vento leva os cabelos
em direção ao faro masculino sedento
de fato mesmo sem tato
para a compreensão.
São humanas!
Tratadas de manas,
de cachorras, de periguetes.
Carregam estiletes para se defenderem,
se o acaso lhes acusar de terem
mercadorias sem nota fiscal.
Mulheres sem dono. Mulheres de coleiras com o nome de seus donos.
Mulheres analfabetas, mulheres sem escolhas...
Apenas mulheres que vagueiam pelos vagões
do trem que não tem hora para ir e nem vir...
São católicas, evangélicas ou sem fé
pois viajam de pé
cansadas,
exaltas,
molhadas,
famintas
e algumas, amadas, outras perderam o seu amor entre os trilhos.
Musculosas, faceiras, perfeitas
ou deficientes.
Coram, choram e sorriem
na mesma velocidade
com o que o trem
atravessa a cidade...
(autoria Selma G. Coentro)