Anda esperta, moleca,
a vida é faceira
e se der bobeira,
o vento te leva...
Com este verso eu atravessei a rua de muitos anos passados. Algo de velhos tempos ainda se mantém no mesmo lugar, outros soam totalmente desconhecidos.
A calçada tem buracos novos, mas iguais aos antigos...estranho demais isto!
Atravessando a rua me vem logo à mente que deveríamos ter um notebook acoplado à nossa mente, olha quantas idéias nós perdemos pelas ruas na falta de um pedaço de papel e tempo para anotar as letras formando opiniões, definindo conclusões, mostrando falta de razão e espaço de sobra para as emoções.
Não sei mais há quanto tempo aquelas pedras que formam as calçadas marcadas ainda por notas musicais, não viam os meus pés, não sentiam o meu peso nos passos apressados entre tantas pessoas lerdas, acostumadas com um calor infernal, uma moleza invejável e uma preguiça traiçoeiramente reveladora da cadeia genética.
Não me furto ao passado. Deixo livre o caminho para que ele me traga nas minhas mãos, o que rouba meu presente de hoje: momento de relembrar lances que aconteceram e se tornaram pedaços de um quebra cabeça já sem nexo.
Homens e mulheres que cruzam meu caminho, totalmente sem noção do "para onde devo me dirigir", mesmo? Eu esqueci, moça..."
Mas a moça não queria lembrar tanta coisa, não, pois que o passado abusou da sua sanidade e da sua caridade ao lhe forçar uma saída nada à francesa...na vida temos escolhas, mas nem todos tem boas escolhas...é, moço....as vezes a gente tem de pensar pela razão e não pela emoção.
Duro, né?
O Orsina da Fonseca ainda continua o mesmo ironicamente falando: Orsina da Fonte Seca.
As ruas cheias de caras de bandidos disfarçados de camelôs, de gigolôs, de gente do bem que vem para ajudar e ...te fode!
Aqui se faz curva de um modo engraçado: quase rente à calçada da esquina. Não lembrava mais disto!
Aliás, nem da corretinha no tornozelo eu não lembrava!!!!
Como eu adorava usar isto!
Muitas que eu mesma fiz, outras que comprei nas areias quentes das praias, nas calçadas decoradas e até nas barracas baratas da praça (a Saens Pena).
Uma cidade que não mostra mais os seus traços para mim, mas que mesmo assim ainda me faz lembrar Daniela Mercury cantando "O Canto desta Cidade, sou eu....o canto desta cidade é meu..."
...não, não, não...o canto desta cidade não é mais meu. Nem sei mais se um dia foi meu.
Não tenho mais nada a ver com esta sujeira, este calor, este abafamento que me faz entrar nas lojas para buscar o conforto do ar condicionado, o mesmo que eu fujo lá em SP e aqui tenho vontade de levar junto comigo para a calçada!
E nem está tanto calor para isto! Temperatura relativamente quase baixa: 20 e poucos graus...isto nos mata e nos deixa como manteiga derretida em SP...que horror de diferenças!
E o Cristo continua lá de cima com os braços esticados, coitado.
Não cansou ainda.
Não perdeu a fé de acreditar neste povo daqui de baixo.
Não se permitiu um dia sequer de descanso.
Não desistiu do calor dos seres ditos humanos que olham para ele todos os dias e até o ignoram...
E assim, eu parto dessa cidade, não sei quando, mas deixando nas paisagens de trás, as lembranças e os aprendizados.
Carrego dentro de mim saudades, realidades e a frieza de tantas crueldades...
Mas é o que eu tenho de bagagem para hoje, sabia?
No meio do caminho uma pausa na banca de jornal, que de noite em pleno mes de junho, pisca e fica parecendo uma árvore de natal.
Passa um carro apressado por mim. No vidro traseiro um logotipo (adesivo) colado escrito: OBRIGADO JESUS!
Me disseram que tinha outro adesivo escrito tambem: "OBRIGADA, CARMINHA!"
Algum ministério deveria alertar que excesso de mal gosto é altamente prejudicial à visão, à cultura e à saúde em geral...argh....
Não moro no paraíso, não. Mas moro numa cidade que tenta a todo custo respeitar as pessoas que vivem nela.
Uma reciclagem total nesta cidade feita às pressas para um evento mundial, a copa de 2014 e que só coloca é um amontoado de transtornos aos "sobreviventes" que aqui jazem pelas ruas...engarrafadas, mal tratadas e mal iluminadas e mal cheirosas.
Ironia que transborda até em excesso pelos poros. Tudo é motivo de uma piada ou de uma revanche.
Levar a melhor ou ter vantagem em tudo e o Gerson que talvez nem lembre mais quanto ganhou para falar este bordão no bendito comercial dos anos 80 ou teria sido nos 70? Não lembro mais...
O barulho do funk que surge do nada e atravessa perfurando nossos ouvidos sem pedir permissão...não importa a letra! Vai dar dinheiro de qualquer jeito ao MC, ao Dj ao raio que o parta pelo meio que canta toda esta bosta!
A revista dominical do jornal mais famoso, traz a historinha do pobre menininho rico filho de 2 fatalidades: Luma e Eike.
Aos 17 anos o "menino" conta orgulhosamente ainda que de forma discreta, o mimo de ter sido expulso de uma escola alemã e ter sido, digamos que, convidado a se retirar por fazer xixi no material do coleguinha...que legal, né?
Eu penso na minha filha que todos os dias tenta elaborar uma forma de arrumar um emprego que não lhe atrapalhe os estudos e dou de cara com 3 folhas dedicadas à reportagem deste, me perdoe, mamãe e papai do filhote/problema, mas um completo inútil sendo alimentado a se tornar cada vez mais inútil!
Ele estuda na empresa do pai com professores particulares porque não se adapta com ambiente escolar.
Eu hein...tem deficientes por este mundo afora saindo no tapa disputando uma vaga numa escolaa comum e este aprendiz de meliante se torna DJ aos 17 anos com uma capinha de celular da Ferrari customizada pela merreca de 800 dólares, roupas e calçados importados, uma saúde de ferro e um cérebro já estagnado...nem sei porque toquei neste assunto.
Vai ter gente mencionando inveja. Ah, vá!
Inveja a gente pode sentir de gente bem sucedida, que venceu na vida.
Entendeu a diferença?
Mas enfim...coitado, ele tem escolha sim! Mas todos parecem envergonhados de terem de dizer isto para ele.
O barato todo é o jornaleco perder páginas inteiras para contar a história (?) deste "príncipe" com cara de Barbie...não tem duplo sentido homofóbico nesta minha expressão. Nem adianta tentar enfiar um para me meter um processo na justiça que a educação da minha filha prova justamente o contrário!
Falando em letra J...
E justiça seja feita, não é que justamente a Ticiane não aguentou o Justus????
Poxa, essa eu jurava que ia, héin!
Não fui a única a jurar em falso, a diferença de idade justificou tudo ou quase tudo.
E vida quando não vai indo, vai se fazendo de besta, levando quem ainda não precisava ir agora....mas como dizem que nem folha cai do pé antes da hora...eu me deixo convencer
Nao sei que horas, nem quando, mas devo sair desta cidade. E não vou levar a Daniela Mercury para cantar no meio do meu caminho!
Vou levar a imagem que restou, as palavras finais de perdão dado e recebido. Quitação completa de altas dívidas!
Não posso dizer ainda que "valeu" a vinda.
Mas posso me tranquilizar de que parto em paz, com a sensação de missão cumprida dentro dos meus limites.
Fiz TUDO o que estava ao meu alcance. Fazer mais seria querer ser Deus!
E se eu fosse Deus...nem eu estava aqui escrevendo isto tudo, nem voce estava sentado aí lendo uma enorme de uma metáfora que ninguém vai entender nada...
(autoria : Selma G. Coentro)