Assim ela foi entrando: em uma das mãos, segurava uma blusa. Com a outra mão, uma calcinha.
Não sabia o que fazer. Depois de tanto tempo esperando a vez, já tinha esquecido como era tudo aquilo de novo.
Ele, ali, parado em sua frente, pedia-lhe que entrasse logo.
Ela hesitava de medo de ser vista, de algum olhar ser testemunha de sua fuga. Mas entrou e sentou ao lado dele.
Não tiveram tempo para as conversas. O desejo falou mais alto que tudo e foram direto para o quarto em ânsias e tremores de amores perdidos e esquecidos no tempo.
Suas mãos se entrelaçaram e começaram o jogo do infinito...
O vento nunca tinha visto tanta roupa ultrapassar o ar e cair no chão frio. Ele, por sua vez, nunca imaginara que ela um dia se entregaria por inteiro, sua, somente sua.
Nua, completamente nua.
Bela, linda, esplendorosa em seu desejo!
Ele, formoso, passava os braços em torno da cintura dela e lhe pedia mais. Em beijos, em sussurros, em chamegos e dengos.
O que de mais poderia haver entre eles, que se queriam e se amavam mesmo sem saberem?
O tudo, não era suficiente.
Os corpos ardiam entre as estrelas dos olhos de cada um. As mãos contornavam as curvas com todo ardor possível e até mesmo impossível. O fogo da vida enfim se acendeu entre suas bocas, enchendo o ambiente com o odor de rosas vermelhas, incenso e bolhas de espumante. Taças se quebraram na pressa do brinde e os cacos não cortaram suas peles imunes ao mundo.
A descoberta deste amor foi um laço no destino de cada um deles, recém-conhecidos, porém relembrados de dias que não faziam parte deste calendário nosso.
Os lençóis eram de cetim, mas se não estivessem ali, não fariam diferença para o desenrolar e desabrochar de tanto sentimento guardado. Em nuvens, eles flutuavam. Em chamas se ardiam e se buscavam inquietantemente. No silêncio do segredo, se revelavam amantes. Em nuances perceptíveis de contatos além da lenda da vida e das estrelas.
E seguiram (felizes ou não) neste barco em direção às águas abençoadas por Iemanjá. Salgadas como a natureza criou. Cristalina como Deus desenhou.
No instante, o mais importante é lembrar que o amor é eterno e satisfeito apenas dentro de um coração que o aceite, que o chame, que o declame incessantemente. Mas por sua livre e espontânea vontade. Nunca a força, apenas se fôr para fincar a seta do cupido até sangrar...
O gozo não era o alvo do encontro. O orgasmo mais profundo foi no encontro das almas planejado em outro planeta, o da perfeição.
Em comum acordo com este detalhe, se viraram de lado e adormeceram. Descansaram da longa jornada de carícias e afagos íntimos. Ao despertar, se deram conta que o tempo passava e era preciso voltar para a vida.
Se vestiram. Se entreolharam e se despediram. Só.
Somente um beijo discreto para selar um futuro muito breve reencontro.
Sabiam que mesmo que morressem em separado ao sairem dali, nada mudaria, pois a luz da espiritualidade viria para acertar as contas que ficaram na mesa do altar daquele amor.
As taças quebradas ficaram como testemunhas do ato em si.
A cama desarrumada ficou no abandono cheia de suor.
A luz ficara acesa, para que a energia não se dispersasse e esperasse pelo dia seguinte, quando retornariam.
Um último olhar dela em redor do quarto, em busca de algo esquecido. Nada. Tudo estava em suas mãos. A blusa, ela vestiu por medo do frio e a calcinha, guardou na bolsa.
Vai que na estrada de volta, eles resolvessem retornar para o quarto...