terça-feira, 28 de agosto de 2012

Calçadas do Tempo.





 
 
 
 
 
 
E o tempo vai passando...vou andando pela rua em busca de uma esquina onde possa repousar meus pés cansados da caminhada debaixo do sol frio.
Olho as mesmas árvores. Penso as mesmas coisas sobre elas.
Da calçada avisto um muro verde, que já foi azul, rosa e lilás. Não sei dizer se trocaram-se os donos ou o gosto do mesmo dono. Pode ser que o ponto de vista dele tenha sido alterado por algum fato inédito e imprevisto...pode ser vontade de renovar, acreditar em algo novo de novo tom, de novas bases.

Da mesma calçada avisto uma criança brincando com suas bolas de gude. Meu medo sempre foi o de um dia acabar tendo de presenciar esta criança engolindo uma delas. Mas algo sempre me deu uma paz quando sabia que esta criança estava ali, sentada brincando. Ela era a representação da infância que não se perdeu na evolução;

Do outro lado da calçada sei que há uma mulher à espera de um ônibus. Também não sei se ela vai ao trabalho, mas sua pontualidade compete com a minha curiosidade. A dona não sabe que eu a observo, mas eu sei que ela observa os homens que passam. Talvez procure por algum de seu passado, ou querendo que algum delesfaça parte do seu futuro. Suas vestes não demonstram seu destino. Não revelam seus segredos, mas entregam suas esperanças. Desnudam o seu equilíbrio no salto alto azul cobalto que ela adora ficar olhando, conferindo a perfeição de seus dedos com a ponta do sapato.

Ao meu lado, sei que um idoso passa por mim e me diz um bom dia com cheiro de tempo. Não de tempo passado. Mas de tempo vivido. Tempo curtido. tempo espremido entre brincadeiras e responsabilidades.
Junto com ele, vai "sua senhora", a dama que lhe sorri sorrateiramente ao longo dos anos. Sempre com o dedo em direção ao céu, como a acusar que poderá chover.
Meus pensamentos passeiam por tantos personagens que avisto.
Minhas lembranças afligem quando me dou conta de que meu tempo também está passando!

Desta calçada eu sei que muitos passos se alongaram em torno de sustos e boas surpresas. Assaltos foram planejados ali e até mesmo executados na pressa que só o crime conhece. Este concreto já foi testemunha de muitos namoros, olhares escondidos comprometedoramente medonhos e assanhados entre as saias das meninas e os bolsos dos rapazes.
Passos que se apressaram para a cama. Outros se desviaram da lama e foram para um quarto mais quente, mais longe para não serem importunados.

Nas calçadas das ruas onde passo todos os dias, deixo notas de minha autoria. Quem sabe, um autor as recolha e leve-as para um convento e as santifique? Quem sabe, elas deem flores e saibam frutificar doces sonhos de quem busque um encanto para alcançar um degrau a mais na vida pesada, lenta, ensurdecedora? Sendo bentas, elas poderão servir de alento para alguém. Assim eu desejo. Assim eu as entrego ao mundo.
Hoje, agora e sempre.

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