quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Uso, Preconceito e Aceitação.
O malvado termo bateu na porta de novo...
Já conheço ele de tantos anos e agora me reaparece na figura de uma criança de 03 anos discriminada de forma ridícula dentro de um avião. Uma gaiola voante de onde não se tem como escapar dos olhares comparativos, admiradores e constrangedores.
A situação da criança portadora de EB que foi usada como bode expiatório para promover uma empresinha de terceira categoria, me despertou de volta o nojo que já senti diversas vezes por ser não discriminada, mas criminalizada pela deficiência auditiva como se eu fosse a responsável, a criadora da minha surdez!
Assim como eu, esta criança também não escolheu de forma carnal este limite. Vamos deixar de lado os dogmas, os letreiros religiosos que falam e justificam ser tudo causa de outra vida, resgaste de outra vida, castigo de outra vida, responsabilidade de outra vida, karma, enfim, dessa outra vida nem eu e nem esta criança nos lembramos de absolutamente nada!
Não temos como explicar para uma sociedade hipócrita que somos assim hoje porque no passado de outra carne fizemos isto ou aquilo. Não temos como explicar. Só sentimos na pele a dor diária de um olhar, um julgamento, um desprezo, um pouco caso, um "depois eu converso com você, agora não dá porque estou ocupado".
Dói. Gente, como isto dói. Se metade ou melhor, 1 % das pessoas pudessem saber o que é dor, não fariam 0,0000000001% do que nos fazem sofrer.
O Zé da esquina usa óculos mas não sofre discriminação. Por que?
Gente que enxerga mal mas enxerga 100% bem o que o outro mostra de si...
Pior:
Sim, existe pior!!!
Você que tem as duas pernas, os dois braços, anda (pode andar mal, mas anda), enxerga, ouve e fala não sabe, mas existe algo pior do que ser deficiente.
SER USADO PORQUE TEM A DEFICIÊNCIA.
Como isto ocorre? Te alugam para usufruir da sua energia, do seu potencial, do seu EU, do que você oferece de bom ou até mesmo do seu lado ruim, mas serve assim mesmo.
Esta criança (nem vou dimensionar para a família que estava junto) foi devidamente usada para promover, no caso, o nome de uma empresa chinfrim. Barata.
Eu?
Já fui usada de formas que não sei como olhar para trás e ME dizer: eu aceitei. EU suportei. EU aguentei. EU deixei.
A criança tem apenas 03 anos, mal sabe ela do mundo que lhe acolhe no futuro...
EU, às vésperas de completar 50 anos...quem diria que eu chegaria a tanto???? Nem EU acreditava...mas cheguei.
Vim de pernas bambas, com um cansaço no corpo sem igual.
Se EU tivesse participado de uma maratona não teria tanto cansaço físico. Nem mental. Nem espiritual.
É fácil usar uma pessoa, muitas vezes nem precisa ter uma deficiência, basta ser gente. É fácil usar o outro para satisfazer seus egos mal resolvidos. Suas carências mal encaradas e fingidas como uma fome de mendigo que já se acostumou ao estomago vazio.
É fácil, sim!
É permitido!
Pelas leis, pela sociedade, pelos demais e até pelo próprio incapaz que não quer ser responsável para dizer "chega"!
Fato, que muitas vezes a gente até tenta chegar no "não", mas ele esbarra em laços: sanguíneos, afetivos, profissionais, casuais e por ai vai.
Nojo desta raça, isto que eu sinto.
Se aprendi com a deficiência?
Respondo da forma mais fria: aprendi a respeitar, mas confesso que não aprendi a aceitar o que me fazem.
Me respeito como deficiente.
Me respeito como a mulher capaz.
Me respeito como gente.
Mas não respeito de forma nenhuma aqueles que me usaram.
A cada um deles: o meu foda-se será eterno.
Todos também passarão por uma deficiência um dia, maior do que a que já possuem: a deficiência moral e espiritual.
Não creio mais que um dia se aprenderá que somos todos iguais. Isto virou papo para botequim, desculpa para mais um copinho.
Faça um GOL na sua vida, mas não descarregue o peso nos ombros de quem confia tanto no seu brilho. Isto não tem perdão.
A hipocrisia religiosa é foda!
Eu devo perdoar, porque preciso evoluir...oh.
Sabe como a gente evolui de verdade?
No silêncio da sua casa, ou do seu trabalho fazendo apenas o que seria cabível que lhe fizessem o mesmo.
À família Colker, meus sentimentos.
Hoje o que vocês sentem é um luto por verem que morreu um mundo de esperanças que desejavam para o seu filho.
É um luto assim que eu venho vivenciando há anos...morreu um ente querido para mim: tinha nome e sobrenome. Hoje só restou a verdade que atende por um apelido falido.
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