terça-feira, 16 de outubro de 2012

Te despirei com minha boca e meus pensamentos...






 
 
 
 
 
E te conduzirei ao altar dos sacrifícios dos sentimentos da carne devassa.
Deixarei suas pernas bambas, não aceitando rumos que não forem em minha direção.
Te acordarei com um desejo pecaminoso, pensando ardentemente em mim, me querendo profundamente em você.
Seduza-me se você fôr capaz...rapaz, acorde deste sonho logo. O amanhecer já chegou e o tempo não vai parar para que eu e você possamos decidir um destino que já foi escrito nas entrelinhas sagradas de um deus que nos quer felizes sempre.
Te refresco em dias quentes, da forma perfeita como só eu sei o que lhe faz bem...
Arrepie-se com minha presença na sua mente. Arrepie-me com seus braços ao longo do dia, da tarde, da noite, da madrugada de todos os instantes.
Faça de nós dois, a fruta obscena que não coube nas escrituras.
Não preciso viver em um mundo que não exista você e eu. É preciso mais: a tentação. Te tentar. Me tentar. Tentar ser vivamente feliz saboreando o que nos ilumina em milhões de tons diferentes.
É um segredo.
Você tem medo e eu não ouço os sons dos estalos dos seus dedos para afastar este mal...
Falamos a mesma língua, usamos os mesmos modismos, tocamos os mesmos objetos, pensamos no mesmo caminho com a mesma velocidade nos passos tortos de pernas trocadas pelo desacerto da vida.
Sim, nós vamos errar muitas vezes, porque isso faz parte do plano e da lista necessária para zerarmos nossas energias passadas que vieram de acordo com nossas intenções neste presente.
Melhor perdermos o juízo de vez, do que vivermos em vão nas passarelas da dor...










terça-feira, 2 de outubro de 2012

Oh, saco cheio.

Pessoas falsas deveriam ter prioridades na vida, assim como idosos, deficientes, crianças e semelhantes o tem.
Sabe qual a prioridade?



A de nos dar o direito de expurgá-las do mundo por inteiro e completamente de vez!

Isso mesmo: feito cocô.

 
 
meu salto agulha já tá apontado para alguns.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Cosme e Damião!









 
 
 
 
 
Dia de Cosme e Damião era sagrado para todos nós da família!
Não importava o tempo, mas dificilmente chovia. De verdade mesmo, não lembro de nenhum dia que estivesse chovendo. O importante era ir na casa da Dna Vidinha buscar os nossos saquinhos.
Nossos, porque meu irmão, apesar de não ser mais criança, ainda recebia o mimo das mãos da querida e saudosa dona Vidinha, que nem sei bem qual grau de parentesco tinha conosco, mas morava perto de meus primos e era razão a mais para ve_los, matar saudades, brincar com eles!
Dona Vidinha teve gêmeos: o Jorge e a Georgina. Não sei bem, mas se a lembrança me diz certo, uma vez eu perguntei para ela o motivo de tantos doces e ela respondeu que eram os gêmeos.
Tudo começou com 50 saquinhos, depois passou para 100 e nas últimas vezes em que fui buscar meu saquinho, creio que nem ela mesma sabia mais a quantidade certa. Era doce pela casa toda...doce do bom! Doce fresco! Doce industrializado, mas acho que o amor que ela colocava no gesto, era tanto que acrescentava um sabor especial para cada um.



 
 

Tudo era uma imensa festa para aquela família humilde, mas que não economizava absolutamente nada para a doação. Vinham crianças de todos os lugares! Era criança que não acabava mais...mas eu e minha mãe conseguíamos entrar na casa dela com facilidade e isso me dava um certo ar engraçado. Uma criança que tinha prioridade entre tantas outras. Coisas de criança mesmo...
Eu só abria o saquinho quando chegava em casa. Ganhava vários, pois a tradição no RJ era comum e dificilmente existia aquela coisa da criança não poder os doces que só poderiam ser amaldiçoados por uma ignorância religiosa.
Minha mãe também dava os doces, mas por uma promessa que não vem ao caso contar aqui agora. Mas ela assim que foi abençoada, passou a fazer a doação religiosamente independente das condições financeiras ou de saúde.
Eu adorava acompanhar ela! Fazia tudo de um modo bem discreto. Chamava um e oferecia. Meu papel era segurar a sacola dos saquinhos e me furtava em observar o olhar de agradecimento da criança, muitas vezes da mesma idade que eu ou as vezes, com um pouco mais de idade. Os pequeninos, ah...esses colocavam um bilhinho no olhar que era inesquecível...ô coisa boa que é a caridade!
Crianças que recebiam os doces que os alimentavam na dificuldade que a fome trazia. E ainda tinha gente para falar mal dos doces, do gesto de dar os doces.
Havia na família quem fizesse "a mesa dos doces". Já era um pouco diferente porque entrava o lado da religião, da Umbanda ou da macumba, termo muito comum no RJ e não denegre em nada a caridade ou a religião em si.
Para as mesas, eu não costumava ir e até tinha um certo receio.
No lado da minha memória infantil ainda tenho a magia do Pedrinho da Praia...("Pedrinho da Praia, vem me ajudar, porque meu barquinho, quer afundar.").
Lembro de uma vez que minha mãe foi fazer sua distribuição na porta da igreja de São Cosme e Damião no bairro do Andaraí e foi bem complicado...ali já não dava mais para as crianças induzidas por suas mães e adultos que os acompanhavam, manterem o respeito e com medo, ela nunca mais fez a distribuição ali.
Ir à igreja fazia parte do dia 27 de setembro.
Ali eu descobria meu receio com imagens grandes. Não sei por que. Mas evitava olhar de frente para os Cristos crucificados de tamanho além do normal.
Na porta, a imagem dos dois santinhos era abençoada com uma paz muito grande ao redor. Havia sim, uma energia forte, poderosa que "recebia" cada visitante com...não tem como explicar, mas talvez fosse um passe...uma bênção mesmo!
Tudo isto ficou no meu passado.
Quando minha mãe começou a ficar doente, ela acabou tendo de parar com a doação dos doces, mas isso não interferiu em nada na nossa fé nos santinhos.
Peço muito a eles, hoje, que não deixem essas nossas crianças perderem a inocência apesar da vida agressiva que vemos ai fora.
Que cada uma dessas crianças seja coberta de toda proteção ao atravessar as ruas atrás dos saquinhos de doces, que eu espero, que no RJ ainda continue sendo forte e cada vez mais forte apesar das dificuldades sejam elas quais forem.
Que São Cosme e Damião olhe todos os dias por esta gurizada, para que elas se tornem adultos felizes e responsáveis com a missão que lhes foi dada para cumprirem aqui.
E muito doce para todos nós! Para adoçar as dores e as tristezas nossas de cada dia.
Peço também paz entre os humanos, entre os parentes, os vizinhos e meros conhecidos e até mesmo entre os que passam por nós sem nenhum significado nas ruas da vida.
SALVE COSME E DAMIÃO!


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Surdo no dia do surdo.












Dia 26 de setembro, dia nacional do surdo.





Muito se comentará sobre o dia dedicado a quem não teve a sorte de ser ouvinte completo, mas muito pouco/quase nada se fará para mudar a situação sobre as dificuldades do surdo.
Partindo do respeito. Muita gente parece desconhecer por completo que surdo também merece respeito.
E sobre este respeito há muito o que se falar! Muitas vezes ele já se revela no trato com os profissionais da saúde que estudaram para poderem melhorar as condições da surdez presente tanto em crianças como em adultos ou idosos.
Surdez não tem idade. Quem disse que tem?
Pode ser de nascença, como pode ser adquirida por uma doença mal tratada, ou uma doença com sequelas irreversíveis. Pode vir com o tempo que vai desgastando o material de nascença. Na terceira idade é bastante comum e muito mal vista. Pende como um sinal de mimo, de necessidade de chamar a atenção, birra, etc...
O surdo é visto como aquele eterno desatento. Um bobão que se apaga do mundo ao redor.
Preconceito não tem lâminas, mas fere e dói, para quem não sabe.
Uma vez nas mãos de fonos mais preocupados (as) com a carreira financeira, eles acabam sendo vítimas de preconceitos TAMBÉM. Recebem orientações no tom de broncas, de reclamações, de críticas e de ordens que nem sempre tem razões de serem.
Usar as próteses, no começo é muito desagradável.
Imagine uma criança de seus 5 anos, ouvindo pela primeira vez o que ela nunca ouviu e nem sabe o que sejam os ruídos, aquela coisa de barulho...custam muito para aceitarem e chegam ao cúmulo de quebrarem os aparelhos, não por ignorância, mas as vezes até por medo!
Muitos fonos são incompetentes. São despreparados para tal função. São desqualificados pela criação que tiveram que não ensinou a ver que educação não é apenas estender um cumprimento. Um bom dia, é ótimo. Mas cuidar de um paciente com generosidade, com paciência, com afeto até mesmo, é imprescindível!
Qualquer paciente quando adentra um consultório, ele se sente totalmente fragilizado. Não importa qual profissional esteja sendo procurado, podemos classificar nesta vasta lista, os dentistas, os neurologistas, os psicólogos, os nefrologistas, enfim...e quantos realmente atendem seus pacientes com disposição de ouvir, de atender bem? Nem todos...
Muitos pensam nos pacientes como fonte de renda.

Mas existem os profissionais bons, sim! A estes, eu dedico aplausos generosos!
Boa parte destes, é que lançam campanhas para orientações sobre cuidados precisos para com a audição. É de bom tom preservar o que se tem de melhor, ou de bom uso para que não haja sofrimentos futuros sobre a falha do mecanismo da audição.

Não se pode culpar o ser humano pelo descuido devido falta de tempo, falta de conhecimento ou falta de meios para que tenha um bom cuidado com seu organismo.
Não lavar a cabeça a noite, pois o canal auditivo necessita de um certo tempo para secar bem ou optar pela secagem com secador de cabelos (na temperatura mais fria possível).

Não ouvir headphones em altos volumes!!! Os adolescentes precisam serem constantemente alertados sobre esta possibilidade de prejuízo futuro!

O uso indevido de medicamentos tópicos para dores de ouvido ou coceiras. Consulte no mínimo um clínico geral e se os sintomas persistirem, retorne ou procure outro médico.

 Não usar ou pelo menos, não abusar de cotonetes. Quando realmente necessários, não devem ser introduzidos ao fundo. Lembrando que, nada deve ser introduzido no ouvido.

Barulhos no interior do ouvido, devem ser levados à sério e revelados ao médico.

E respeitar o surdo que esteja ao seu lado.
Se você disse algo para alguém e não obteve resposta, mantenha a calma, pois ele (a) pode simplesmente não ter ouvido. Não grite, pois na maioria das vezes não adianta e você faz papel de bobo. Humilhar de graça? Para que? O surdo desrespeitado se sente humilhado, sim!
A lei protege, mas procurar os direitos leva tempo...e nem sempre dá em resultado positivo.

Hoje é dia do surdo e você, já abraçou algum surdo que conheça?
Não lhe dê os parabéns! Ele não é feliz por não ouvir, te garanto! No máximo, ele é feliz por saber que a aceitação do seu problema (por ele próprio) abre portas, facilita a vida e a convivência com os demais. No máximo, os parabéns podem ser dirigidos para as vitórias conquistadas duramente pelo tempo, mas nada além disso.
Parabéns, convenhamos, é para festejos e ser surdo não é bem um privilégio...vamos falar sério!

Quer aprender a se comunicar com os surdos de forma correta? Existem vários lugares que oferecem cursos de LIBRAS gratuitos, mas se você quiser optar por algum curso particular, as opções crescem muito mais!

E para explicar melhor: LIBRAS é lingua brasileira de sinais.
Não é linguagem, pois não é falada.
Sim, há uma enorme diferença!
A data comemora a criação, em 1857, do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), durante o Império de D. Pedro II, quando o professor francês Huet fundou, com o apoio do imperador, o Imperial Instituto de Surdos Mudos. Huet era surdo e D. Pedro também, embora. Na época, o Instituto era um asilo, onde só eram aceitos surdos do sexo masculino. Eles vinham de todos os pontos do país e muitos eram abandonados pelas famílias. Hoje o Instituto é um centro nacional de referência na área da surdez. A data é então uma oportunidade para lembrar todas as lutas e conquistas das pessoas surdas no Brasil.

Vou aproveitar para contar um pouco da história da Libras...
A LIBRAS tem sua origem na Língua de Sinais Francesa. Foi criada para possibilitar a comunicação entre os surdos que eram abandonados e entregues para um convento, onde os monges que haviam feito voto de silêncio, se comunicavam por gestos, sendo assim, mais fácil interagirem com os surdos pela comunicação visual.
Na História, vemos muitos casos diferenciados sobre os surdos:

No Egito, eram adorados como se fossem Deuses e serviam de mediadores entre os deuses e os Faraós, sendo temidos e respeitados pela população.
Os chineses lançavam-os ao mar e os gauleses os sacrificavam em oferenda aos deuses. Em Esparta eram lançados do alto de rochedos, enquanto na Grécia eram considerados incompetentes totais e eram marginalizados como os deficientes mentais e os doentes. Por isso, eram muitas vezes condenados à morte...
Os romanos seguiam a mesma linha dos gregos, amaldiçoando-os como indignos de pertencerem à sociedade e seguiam uma lei que impossibilitava os Surdos de celebrar contratos, elaborar testamentos e até de possuir propriedades ou reclamar heranças com exceção dos surdos que falavam.
Em Constantinopla as regras eram as mesmas mas faziam alguns serviços como pajens das mulheres ou como bobos da corte do sultão.
Santo Agostinho defendia a idéia de que pais de filhos surdos pagavam por pecados ao terem filhos que não ouviam e quando conseguiam se comunicar por gestos, era o sinal de que havia chance de salvação da alma, que aliás, alguns chegavam ao ponto de declararem que os surdos não tinham alma pois não eram capazes de proferir os sacramentos...que absurdo!
John Beverley, em 700 d.C., ensinou um Surdo a falar, pela primeira vez (em que há registo). Por essa razão, ele foi considerado por muitos como o primeiro educador de Surdos.
Assim, no fim da Idade Média é que saímos da perspectiva religiosa para a perspectiva da razão, em que a deficiência passa a ser analisada sob a óptica médica e científica.
Na Idade Moderna vem a diferenciação de MUDEZ e SURDEZ.
Em 1898 surge  o primeiro aparelho auditivo! Até então se usava cornetas ou tubos acústicos. Fico imaginando isso...
Em 1970 vem o implante coclear, denominado como uma simples cirurgia onde o aparelho é implantado debaixo do couro cabeludo. Até hoje ainda há muita controvérsia sobre o assunto e eu, particularmente não vejo com bons olhos, já que é necessário um cuidado imenso por parte da própria pessoa com sua cabeça e com sua saúde, pois pode haver reações como infecções, vertigens etc.
Hoje o mercado dispõe de inúmeras opções sobre aparelhos auditivos, chamados de próteses auditivas. Os valores também sofrem inúmeras variações e o Sistema único de Saúde disponibiliza aparelhos depois de uma longa e cansativa triagem.
O custo médio de uma prótese gera em torno de 500,00 até 10.000 reais (cada aparelho). Fora a manutenção com limpezas constantes e as pilhas que duram em cerca de 1 mes, dependendo do aparelho.
Leitura labial é um hábito entre os surdos. Depois que se aprende, torna-se vício. Muitas pessoas se sentem incomodadas ao terem os lábios seguidos pela leitura, mas para o surdo facilita e muito a compreensão da fala do outro.
Legendas nos filmes, nos programas de tv é uma necessidade básica, mas que vem sendo adquirida há pouco tempo. Close caption se torna obrigatória, os aparelhos de tv são feitos com esta facilidade, mas nem todos os programas de tv acompanham e/ou se adaptam, o que é uma pena. Perdem a audiência da comunidade surda.

As Línguas de Sinais não são universais. Cada país possui sua própria língua de sinais e sofre as influências da cultura nacional, que se diferem de região para região.Muitas vezes se diferem até mesmo de um bairro para outro dentro da mesma cidade.
Em 24 de abril de 2002 Fernando H. Cardoso sanciona a lei que reconhece LIBRAS como meio legal de comunicação e expressão.


E eu, tenho perda severa e profunda. Aprendi a conviver com a minha situação há relativamente pouco tempo, talvez uns 6 anos. Tive a ajuda de poucas pessoas, mas que jamais sairão do meu coração pela força que me deram.
Minha mãe foi a primeira pessoa a me aceitar assim. E por ironia do destino, faleceu há 1 ano e 4 meses com uma surdez considerável, causada pela idade.
Tive poucos amigos sinceros que nunca me discriminaram pela condição da surdez. Alguns também compartilham o mesmo problema, ainda que de forma não assumida ou não reconhecida por suas variadas razões que não vem ao caso. Não importa. Cada um terá o seu tempo para enxergar o problema com os olhos da própria alma.

A todos que me empurraram para esta melhoria na qualidade de minha vida, meu sincero agradecimento.
E aos que nunca aceitaram, saibam que eu desejo muito que vocês jamais venham a conhecer esta dor de ser diferente. Pois para Deus, somos todos completamente iguais.


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Miragens de um deserto em mim.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
As Almas São Desertas E Grandes
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.
Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,
Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.
Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.
Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.
Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.
Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.
Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.
Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!
Mais vale arrumar a mala.
Fim.
Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa)
4-10-1930
 
 
 
 
E a mala da vida segue em frente, diante de mim. Não sinto que ela tenha destino certo, mas também não aventuro a dizer que ela esteja em vão. No vão entre a vida e a morte.
Segue em paz no leito de hospital, esperando a vez no atendimento urgente.
No que resta de direitos do cérebro, ele vagueia pelos corredores em busca de ajuda, de uma aspirina, uma morfina que ponha fim ao desespero.
A fome começa a aparecer na porta de entrada, mas não é liberada para acompanhamento. Visitas, somente depois, no estágio pré, aquele que Deus determina como sendo o passaporte da liberação das enzimas que pertubam o organismo doente.
 
O deserto não tem paredes, não tem limites, não tem parentes que incomodam. Gente demais para palpitar ou para despistar disfarçadamente um descaso antigo.
Nesta mala não posso levar o mal do apego. Ele não me pertence.
As areias finas que arranham meus olhos, são pertences desta terra longíqua, deste saber desgovernado através de tantas letras perdidas no texto sem sentido dos meus maiores sentimentos.
 
A realidade também não voltará amanhã, já deixou anexada na parede o aviso de sobrecarga de serviços e deixa claro que não tem tempo para retornar em ritmos que meus quadris querem obedecer.
 
Pessoas passam. Entram e saem. Mas ninguém fala comigo nestas horas. Só eu e o deserto...
 
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Pessoa fala em cigarro, mas eu insisto que não o quero mais. Poucos sabem que o substitui por algo que não era para mim. Grandes novidades...rsssssss.... som demais para meu pouco ouvido interno...mas amanhã é infinito, quem sabe eu me decida pelo aroma de um  novo perfume no pergaminho esquecido na gaveta?
Não há respostas. Assim como não haverá nexo neste post para quem não conhece minha alma de sobrevivente de um deserto insano e disposto a rasgar os traços mais finos da delicadeza humana.
 Sou eu. Sou parte deste deserto.
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Caça e Caçador...

 
 
 
Revirar o báu das lembranças...
 
Viver o passado, respirar o presente e almejar o futuro! Coisa boa, quando vem seguida de uma letra pra lá de sensual. Daquelas que você ouve com os olhos e sente com as mãos o ensejo de cada nota no cangote...
 
E você, vai ser caça?
 
Ah, tudo bem!
 Eu te caço entre as dobras do lençol amassado, amarrotado e esquecido no chão do nosso mar de sonhos...deixa que eu vou atrás das dobras de sua pele na minha. Eu corro com a língua cada centímetro de seus suaves entornos e nada suaves penugens.
 
Me estarreço de ver que sou também sua caça em cada virada de um suspiro, de um gemido mais alto ou de um grito de prazer estancado nas paredes feito quadro. Não de Mona Lisa, não, não.
Um quadro de nudez escancarada como o nosso querer.
 
É tudo tão leve e louco que nem há pressa em pensar na hora de ir embora.
Afinal, o amor não tem de ser uma história com princípio, meio...e para que o fim??? Que fim! Tire sua roupa que vamos começar tudo de novo, pois é sim, fácil de mudar qualquer plano! Basta eu te olhar e você me olhar.
Venha me responder com seus cílios nos meus.
 
Com seu suor no meu.
 
Com seu presente no meu futuro.
 
 
 
Você quer ser o caçador?
Tudo bem. Eu deixei. Deixo e deixarei até o ar acabar.
 
Seja meu caçador em forma de objetos e brinquedos de prazer. Perfure o destino com palavras inebriantes ao meu ouvido, em todos os dias, em todos os segundos da vida.
 
Nesta armadilha não entra mais nada. Somente meu hálito junto ao seu.
Vamos abrir vinhos, refrigerar nosso interior e avivar os sentidos mais pornográficos que a terra já tenha tido conhecimento.
Vamos aflorar todo erotismo, porque desejo e moral nunca foram par romântico no julgamento final perante os anjos. Aliás, nós vamos desencaminhar todos os anjos e levá-los conosco ao topo do orgasmo físico, mental e espiritual. Sim, isto existe! Está no Kama Sutra,eu te ensinarei em detalhes maquiavelicamente cronometrados. Sei que você vai duvido que alguém já tenha levantado hipótese de tal arrogância...
 
Venha comigo para outro mundo onde seremos nossos únicos e próprios juízes. Só isso. Ou de repente pode ser muito mais que isso. Pode ser uma explosão de tudo o mais dentro de nós com total capacidade de mudar o mundo inteiro!
 
Deixe....
 
 
Seja minha caça e meu caçador.
Veja em mim, o seu eu dentro de você...faça das palavras o degrau que as secreções vão usar para escoarem dos nossos corpos... 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Intuição.













 
 
 
Deixei bem claro para ela: nada será fácil.

Quer ouvir mais?
Então senta ai, pega um copo de água, puxa a cadeira e ouve...



O tempo ficou curto, não deu para falar muito. Só deu mais para sentir a batida nas costas e depois as dores que não sei quanto tempo durou. Relembro que acordei deitada. Olhei para cima e tive a certeza de que aquelas paredes não eram as do meu quarto. Nem da minha casa. Nem das casas que eu conhecia.
Aos poucos, os rostos familiares foram se aproximando e percebi que não estava mais inteira. O espanto era geral, alguns não sabiam disfarçar e outros não disfarçavam por querer mesmo aparentar o horror no rosto.

O tempo passou.Ñão sei quantos dias. Não sei nem quantos anos.
Não soube mais dela. Mas sei que sobreviveu aquela pancada que nos atingiu.
Eu e ela, éramos cúmplices de uma única coisa: a dor em comum. O remorso por não termos feito nada para evitar que tudo tivesse tido um rumo diferente. Nós sabíamos bem dos riscos, mas não acreditávamos que estivéssemos em área de risco.

Sabe aquela historinha pra boi dormir, que sempre teremos proteção e o pior só acontece no quintal do vizinho? Pois é. Foi esta teoria que nos afundou dias e dias naquele hospital.

Nem sei porque vim te contar isso aqui. Eu jurei que nem iria mais lembrar de nada daquilo. E no entanto, esquecer é uma palavra que não deveria ter sido inventada...ela não existe mesmo. Ninguém esquece ninguém. Ninguém esquece nada.
Só esquecemos o que não existiu. O que não teve valor interno. O que não foi importante. O que não faríamos de novo.
Só esquecemos daqueles que passaram pelos nossos caminhos e deixaram o nada. Absolutamente nada.
Quem deixou alegria, é sempre recordado.
Quem deixou tristeza, é sempre relembrado.
Quem deixou dor, é sempre amaldiçoado.
Quem deixou mágoas é sempre criticado.
Quem deixou decepção, é sempre comparado.
Quem deixou amor, é sempre amado...

Não tivemos tempo de encerrar a conversa mal começada, ali, no boteco de esquina. Onde as putas se encontravam para ganharem o dia ou simplesmente, achar o fregues do dia.
Aquele boteco, que cheirava lama misturada com a pinga oferecida às entidades na porta. Ninguém, ou a maioria, não as via, mas elas estavam ali, sempre ali. Porque o concreto secava rápido demais ao receber os goles de oferendas e porque as manchas escuras, denotavam a presença delas, das trevas.
Ninguém mais tinha medo disso. Medo é coisa para se ter dos vivos! Os mortos descansam. Como eu e ela um dia iríamos descansar daquele terror que vivemos juntas.

Hoje eu saio pelas ruas e não encontro nada que me remeta àquela conversa. Parece que o tempo levou as palavras com ele. Varreu tudo da minha mente e eu nem sei mais porque relembrei isso agora...talvez seja o mes.Os setembros que cheiram a primavera e avistam as cores das flores, me remetem ao dia em que o sangue era o principal elemento que estampava nossas vestes e nossos lugares.

De volta no passado eu esqueci que o perigo ainda nos ronda. Atravessei a passarela e fui ao encontro das lajotas que seguraram as rodas do carro no momento anterior...estranho isso tudo...eu nunca vivi isso mas sei que conheço cada detalhe é nítido e asqueroso ao meu redor.
Nem sei quem era ela.Mas sei que ela existiu e está viva.
Minhas pontuações se negam a me mostrar seu rosto, para que eu me despeça ou pelo menos possa pedir perdão à ela, caso tenha tido alguma ponta de culpa em suas dores...