Dia 26 de setembro, dia nacional do surdo.
Muito se comentará sobre o dia dedicado a quem não teve a sorte de ser ouvinte completo, mas muito pouco/quase nada se fará para mudar a situação sobre as dificuldades do surdo.
Partindo do respeito. Muita gente parece desconhecer por completo que surdo também merece respeito.
E sobre este respeito há muito o que se falar! Muitas vezes ele já se revela no trato com os profissionais da saúde que estudaram para poderem melhorar as condições da surdez presente tanto em crianças como em adultos ou idosos.
Surdez não tem idade. Quem disse que tem?
Pode ser de nascença, como pode ser adquirida por uma doença mal tratada, ou uma doença com sequelas irreversíveis. Pode vir com o tempo que vai desgastando o material de nascença. Na terceira idade é bastante comum e muito mal vista. Pende como um sinal de mimo, de necessidade de chamar a atenção, birra, etc...
O surdo é visto como aquele eterno desatento. Um bobão que se apaga do mundo ao redor.
Preconceito não tem lâminas, mas fere e dói, para quem não sabe.
Uma vez nas mãos de fonos mais preocupados (as) com a carreira financeira, eles acabam sendo vítimas de preconceitos TAMBÉM. Recebem orientações no tom de broncas, de reclamações, de críticas e de ordens que nem sempre tem razões de serem.
Usar as próteses, no começo é muito desagradável.
Imagine uma criança de seus 5 anos, ouvindo pela primeira vez o que ela nunca ouviu e nem sabe o que sejam os ruídos, aquela coisa de barulho...custam muito para aceitarem e chegam ao cúmulo de quebrarem os aparelhos, não por ignorância, mas as vezes até por medo!
Muitos fonos são incompetentes. São despreparados para tal função. São desqualificados pela criação que tiveram que não ensinou a ver que educação não é apenas estender um cumprimento. Um bom dia, é ótimo. Mas cuidar de um paciente com generosidade, com paciência, com afeto até mesmo, é imprescindível!
Qualquer paciente quando adentra um consultório, ele se sente totalmente fragilizado. Não importa qual profissional esteja sendo procurado, podemos classificar nesta vasta lista, os dentistas, os neurologistas, os psicólogos, os nefrologistas, enfim...e quantos realmente atendem seus pacientes com disposição de ouvir, de atender bem? Nem todos...
Muitos pensam nos pacientes como fonte de renda.
Mas existem os profissionais bons, sim! A estes, eu dedico aplausos generosos!
Boa parte destes, é que lançam campanhas para orientações sobre cuidados precisos para com a audição. É de bom tom preservar o que se tem de melhor, ou de bom uso para que não haja sofrimentos futuros sobre a falha do mecanismo da audição.
Não se pode culpar o ser humano pelo descuido devido falta de tempo, falta de conhecimento ou falta de meios para que tenha um bom cuidado com seu organismo.
Não lavar a cabeça a noite, pois o canal auditivo necessita de um certo tempo para secar bem ou optar pela secagem com secador de cabelos (na temperatura mais fria possível).
Não ouvir headphones em altos volumes!!! Os adolescentes precisam serem constantemente alertados sobre esta possibilidade de prejuízo futuro!
O uso indevido de medicamentos tópicos para dores de ouvido ou coceiras. Consulte no mínimo um clínico geral e se os sintomas persistirem, retorne ou procure outro médico.
Não usar ou pelo menos, não abusar de cotonetes. Quando realmente necessários, não devem ser introduzidos ao fundo. Lembrando que, nada deve ser introduzido no ouvido.
Barulhos no interior do ouvido, devem ser levados à sério e revelados ao médico.
E respeitar o surdo que esteja ao seu lado.
Se você disse algo para alguém e não obteve resposta, mantenha a calma, pois ele (a) pode simplesmente não ter ouvido. Não grite, pois na maioria das vezes não adianta e você faz papel de bobo. Humilhar de graça? Para que? O surdo desrespeitado se sente humilhado, sim!
A lei protege, mas procurar os direitos leva tempo...e nem sempre dá em resultado positivo.
Hoje é dia do surdo e você, já abraçou algum surdo que conheça?
Não lhe dê os parabéns! Ele não é feliz por não ouvir, te garanto! No máximo, ele é feliz por saber que a aceitação do seu problema (por ele próprio) abre portas, facilita a vida e a convivência com os demais. No máximo, os parabéns podem ser dirigidos para as vitórias conquistadas duramente pelo tempo, mas nada além disso.
Parabéns, convenhamos, é para festejos e ser surdo não é bem um privilégio...vamos falar sério!
Quer aprender a se comunicar com os surdos de forma correta? Existem vários lugares que oferecem cursos de LIBRAS gratuitos, mas se você quiser optar por algum curso particular, as opções crescem muito mais!
E para explicar melhor: LIBRAS é lingua brasileira de sinais.
Não é linguagem, pois não é falada.
Sim, há uma enorme diferença!
A data comemora a criação, em 1857, do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), durante o Império de D. Pedro II, quando o professor francês Huet fundou, com o apoio do imperador, o Imperial Instituto de Surdos Mudos. Huet era surdo e D. Pedro também, embora. Na época, o Instituto era um asilo, onde só eram aceitos surdos do sexo masculino. Eles vinham de todos os pontos do país e muitos eram abandonados pelas famílias. Hoje o Instituto é um centro nacional de referência na área da surdez. A data é então uma oportunidade para lembrar todas as lutas e conquistas das pessoas surdas no Brasil.
Vou aproveitar para contar um pouco da história da Libras...
A LIBRAS tem sua origem na Língua de Sinais Francesa. Foi criada para possibilitar a comunicação entre os surdos que eram abandonados e entregues para um convento, onde os monges que haviam feito voto de silêncio, se comunicavam por gestos, sendo assim, mais fácil interagirem com os surdos pela comunicação visual.
Na História, vemos muitos casos diferenciados sobre os surdos:
No Egito, eram adorados como se fossem Deuses e
serviam de mediadores entre os deuses e os Faraós, sendo temidos e respeitados pela população.
Os chineses lançavam-os ao mar e os gauleses os sacrificavam em oferenda aos deuses. Em Esparta eram lançados do alto de rochedos, enquanto na Grécia eram considerados incompetentes totais e eram marginalizados como os deficientes mentais e os doentes. Por isso, eram muitas vezes condenados à morte...
Os romanos seguiam a mesma linha dos gregos, amaldiçoando-os como indignos de pertencerem à sociedade e seguiam uma lei que impossibilitava os Surdos de celebrar contratos, elaborar testamentos e até de possuir propriedades ou reclamar heranças com exceção dos surdos que falavam.
Em Constantinopla as regras eram as mesmas mas faziam alguns serviços como pajens das mulheres ou como bobos da corte do sultão.
Santo Agostinho defendia a idéia de que pais de filhos surdos pagavam por pecados ao terem filhos que não ouviam e quando conseguiam se comunicar por gestos, era o sinal de que havia chance de salvação da alma, que aliás, alguns chegavam ao ponto de declararem que os surdos não tinham alma pois não eram capazes de proferir os sacramentos...que absurdo!
John Beverley, em 700 d.C., ensinou um Surdo a falar, pela primeira vez (em que há registo). Por essa razão, ele foi considerado por muitos como o primeiro educador de Surdos.
Assim, no fim da Idade Média é que saímos da perspectiva religiosa para a perspectiva da razão, em que a deficiência passa a ser analisada sob a óptica médica e científica.
Na Idade Moderna vem a diferenciação de MUDEZ e SURDEZ.
Em 1898 surge o primeiro aparelho auditivo! Até então se usava cornetas ou tubos acústicos. Fico imaginando isso...
Em 1970 vem o implante coclear, denominado como uma simples cirurgia onde o aparelho é implantado debaixo do couro cabeludo. Até hoje ainda há muita controvérsia sobre o assunto e eu, particularmente não vejo com bons olhos, já que é necessário um cuidado imenso por parte da própria pessoa com sua cabeça e com sua saúde, pois pode haver reações como infecções, vertigens etc.
Hoje o mercado dispõe de inúmeras opções sobre aparelhos auditivos, chamados de próteses auditivas. Os valores também sofrem inúmeras variações e o Sistema único de Saúde disponibiliza aparelhos depois de uma longa e cansativa triagem.
O custo médio de uma prótese gera em torno de 500,00 até 10.000 reais (cada aparelho). Fora a manutenção com limpezas constantes e as pilhas que duram em cerca de 1 mes, dependendo do aparelho.
Leitura labial é um hábito entre os surdos. Depois que se aprende, torna-se vício. Muitas pessoas se sentem incomodadas ao terem os lábios seguidos pela leitura, mas para o surdo facilita e muito a compreensão da fala do outro.
Legendas nos filmes, nos programas de tv é uma necessidade básica, mas que vem sendo adquirida há pouco tempo. Close caption se torna obrigatória, os aparelhos de tv são feitos com esta facilidade, mas nem todos os programas de tv acompanham e/ou se adaptam, o que é uma pena. Perdem a audiência da comunidade surda.
As Línguas de Sinais não são universais. Cada país possui sua própria língua de sinais e sofre as influências da cultura nacional, que se diferem de região para região.Muitas vezes se diferem até mesmo de um bairro para outro dentro da mesma cidade.
Em 24 de abril de 2002 Fernando H. Cardoso sanciona a lei que reconhece LIBRAS como meio legal de comunicação e expressão.
E eu, tenho perda severa e profunda. Aprendi a conviver com a minha situação há relativamente pouco tempo, talvez uns 6 anos. Tive a ajuda de poucas pessoas, mas que jamais sairão do meu coração pela força que me deram.
Minha mãe foi a primeira pessoa a me aceitar assim. E por ironia do destino, faleceu há 1 ano e 4 meses com uma surdez considerável, causada pela idade.
Tive poucos amigos sinceros que nunca me discriminaram pela condição da surdez. Alguns também compartilham o mesmo problema, ainda que de forma não assumida ou não reconhecida por suas variadas razões que não vem ao caso. Não importa. Cada um terá o seu tempo para enxergar o problema com os olhos da própria alma.
A todos que me empurraram para esta melhoria na qualidade de minha vida, meu sincero agradecimento.
E aos que nunca aceitaram, saibam que eu desejo muito que vocês jamais venham a conhecer esta dor de ser diferente. Pois para Deus, somos todos completamente iguais.