terça-feira, 3 de abril de 2012

Ela...




Mesmo com o passar do tempo ela ainda se presta a dar atenção aos demais que lhe procuram em busca de uma palavra de paz, de um ombro amigo ou de um conforto.
Não importa a hora, não importa o tempo, não importa para quem. Ela sempre se dispõe por inteira ao diálogo amigo, prestativo.
Sabe que nem sempre as palavras pronunciadas são de sua autoria, mas também não se preocupa em descobrir de onde partem as boas vibrações que emite em prol de terceiros.
Já foi ao ponto de parar dentro de uma igreja ao perceber que olhos aflitos lhe imploravam ajuda. Uma mulher, quase que uma menina, de traços judiados pelo tempo e pela vida, acompanhava seus passos tentando lhe transmitir o pedido de socorro. Ela parou. Ouviu a triste história, sentiu o peso do sofrimento nos ombros e sabia de antemão que não tinha muito a oferecer. Sugeriu alguns modos de ajuda, mas os olhos insistiam em lhe gritar por socorro urgente, o qual ela não tinha como ofertar!
Na esperança de também merecer ajuda, para a imagem de Cristo crucificado e rogou uma luz, se não para ela, que fosse em direção à mulher desesperada.
O problema era comum. Obsessão. Porém, desconhecida pela sofredora que acreditava se tratar de praga rogada por algum desafeto.
Ela tentou explicar um pouco do que entendia e via, que a mulher tentava entender. O brilho de seus olhos ia aos poucos revelando a percepção de que nem tudo estava perdido e havia solução no fim de algum túnel. Restava saber o endereço deste túnel...
E ela também não sabia onde estaria este túnel, mas já lhe satisfazia ver que o desespero nos olhos da mulher havia diminuído. Bastante!
Seu tempo era curto, então não restava outra alternativa a não ser entregar a Deus ali presente aquela mulher com todo seu sofrimento. Hoje, ela ainda pede que Deus não tenha se esquecido daquela criatura desconhecida.
Ela já parou na fila do supermercado para ouvir muitos contarem de seus problemas. Alguns são de fácil trato e talvez até de fácil sugestão. Outros, não resta opção a não ser ignorar e sair de perto. É quando o negativismo domina tanto a pessoa que nada irá lhe remover do sofrimento, que por sinal, se traduz em prazer de sofrer. Difícil de entender...mas ela aprendeu que não adianta insistir com essas pessoas. Melhor deixá-las mergulhadas naquele prazer estranho de alimentar o horror do inferno interno.
Em filas de condução parece pior. As pessoas ficam ansiosas que apareça alguém para dividirem a solidão do dia a dia. Não se dão conta do perigo da abertura com estranhos. Mas ela já se acostumou com isso de ser ímã de gente com problemas....não se assusta mais e procura ajudar no que der.
Já ouviu do mais sadio ao mais insano possível. Nada lhe assusta mesmo!
Alguns são engraçados, conseguem fazer piadas com a dureza da vida. Esses, são seus preferidos! Ela adora um bom humor, um motivo para esticar o rosto num sorriso e quando dá, até mesmo uma sonora gargalhada!
Ela também tem os seus problemas, mas poucos conhecem. Aprendeu que na vida, é injustiça demais se abrir e ver que foi alvo apenas de uma cruel curiosidade. Aprendeu que o mais fiel confidente, é seu próprio travesseiro, que lhe ouve, enxuga suas lágrimas e ainda lhe acolhe no cansaço.
Ela não é mágica, não é santa, não é profissional, não é especial para ninguém, mas muitos lhe apreciam pela santa paciência, pela mágica da possibilidade na transformação do humor alheio. Pela especialidade de ser ouvinte sem ser juíza e pelo estilo profissional de amparar que muitos diplomados desconhecem a simples habilidade.
Ela não sente o peso de cargas derramadas nos seus ombros. Aprendeu que na escravidão, o povo ensinava a aliviar essa energia com luzes de doação espontânea.
A mesma luz que ela sente agora ao escrever este texto.
Sabe que nenhuma palavra caiu aqui por acaso. Ela sabe que tudo na vida tem um "porquê", embora muitas vezes se angustie tanto na esperança de entender algumas coisas sem explicação...
E será que a vida tem explicação? 
Ela olha os mendigos na rua e não entende porque isso ainda existe e até mesmo parece que cresce cada vez mais esse problema social.
Ela olha as crianças nas ruas, perambulando sem rumo e com destino às drogas. Ela sente na pele, mas, o que fazer?
Ela olha os idosos caminhando pelas ruas, na solidão do peso da idade a lhes incorporar. Ela queria merecer a sabedoria de poder morrer antes de ficar velha...
Ela olha o mundo e vê que está tudo certo, o ser humano é que ainda não entendeu,ainda não captou a mensagem divina. Ainda não sabem ao que vieram. Acreditam que tudo isso seja apenas um grande passeio, com direito ao passaporte da diversão com a angústia alheia.
Isso é fácil. Difícil é ouvir...

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