quarta-feira, 18 de abril de 2012

Muro de arrimo.








Do outro lado da calçada está minha reserva de fé me esperando, tentando me alcançar. Faça que não me vê, é melhor! Saiba sair pela porta da frente quando eu não dizer que não quero mais insistir em manter o pensamento voltado para certos carismas idolatrados em formato de gente impecável.

Entenda a realidade do que passo e do que faço por amor ou por dor. Não fique sentado na minha escada, pois eu não vou descer os degraus para te buscar, nem sequer te levantar. Nunca mais. Nem pense que retenho algo em mim além da vida que ainda tenho. Sou energia, portanto, sou eu em minhas lágrimas de teimosia.

Tenho a certeza da partida, é questão de tempo, de horas ou fração de segundos, talvez. Basta eu puxar a alavanca que prende a âncora deste barco à deriva que se transformou este objetivo, que tudo parte para o fundo do mar do além. Tenho por dentro das veias, o rubro que me prende aqui e ali, mas não me impulsiona para saber o que não fazer...

Sou feita de cores, enfeitada pelas flores do mundo que imaginei na perfeição dos meus olhos úmidos pela saudade que nunca te abandonará. Sei o que penso, mas somente eu tenho a permissão para me entender extraordinariamente lívida de ver que monstros existem na beleza da natureza maldita.

Um texto que fala por metáforas inexatas. Que revela verdades escondidas nos esgotos dos interiores alheios e feios. Tenebrosamente invisíveis para alguns poucos, mas indisfarçados para ser o meu castigo.

Eu não me aplico uma punição! Não ouço o suficiente para poder desvendar aquilo que se esvai pelas curvas da tristeza na velocidade do som. Ainda creio que tudo isto um dia, mesmo que em outra era, seja transmutado completamente pelo bem.  

No fim, a alegria vai reinar! Ela desfilará nas coroas de cravos de defunto sobre os túmulos entregues recentemente aos devidos donos, aqueles que deram fim no que havia de bom no cascalho desta ladeira infinita que percorro...

Não pedirei socorro. Nem por mim, nem por nada. Vai que tudo isso passa rápido e os efeitos colaterais sejam mais fúnebres do que a melodia da água descendo enquanto empurra a cápsula esôfago abaixo? Como explicar? Que palavras usar?

Dizem que o tempo é remédio, no meu caso foi um câncer descoberto tardiamente para ser tratado. Já está devidamente alimentado para poder ainda ser eliminado cirurgicamente, então, deixa ele fazer seu papel de destruidor.

Sem penas ou mínimo remorso, vejo que a mesa foi posta no mesmo instante em que o muro ruiu...a chuva vai vir. Vai lavar as janelas abertas para o sol secar diante da multidão...é só esperar.

terça-feira, 17 de abril de 2012

História de areia.







Devagar ela foi saindo de trás da porta, mesmo antes de começarem os primeiros acordes do embalo que a faria em outra mulher.
A voz de Sergio Endrigo dominava o ambiente. Estupefato, ele observava ela meio que insegura, mas altamente desejosa de mostrar o que havia conseguido conquistar. Mal sabia ele, que era o objeto principal de tal conquista, mas se deixava levar pois também gostava da melodia italiana.

O lenço lhe cobria os olhos, mas aos poucos foi descendo e se apoiando na curva do nariz, deixando o olhar livre para acompanhar melhor o desconcerto dele diante de tanta leveza e de tanta sensualidade.
Ela transbordava emoção por todo o corpo! Nunca havia feito algo semelhante. Nunca havia tido oportunidade de se mostrar de forma tão brilhantemente para alguém que merecesse tal empenho. Mas ele estava sendo diferente, portanto, ela queria como que agradecer o mérito da convivência sadia, da boa conversa, do bom entendimento. E como excelente profissional que era, sabia que dominava a arte desde menina.

Não teve professora, teve a vida como mestra. E teve uma inspiradora, apenas. Uma senhora de 51 anos de idade, com mais de 14 anos de experiência para lhe orientar em alguns detalhes. Era destacada pelo empenho, pela dedicação. Pela vontade de se soltar. E pela facilidade nos movimentos.

Mais tarde, com outro estilo de vida, ela retorna aos palcos com o objetivo de alavancar um sonho que ficou adormecido no tempo, por falta de platéia, a qual ela não abria mão de ser especialíssima! Um dia encontrou...chegou um dia em que a tão esperada platéia apareceu quase que do nada. Surgiu num encontro casual com a promessa de vir uma repetição de forma mais íntima.

Ela aceitou, lógico! Sonhou anos com essa realização!

Se preparou em detalhes infinitamente mínimos! Comprou a vestimenta adequada, agora que já não era mais tão jovem, precisava de algo mais discreto e direto. Menos colorido e ao mesmo tempo mais alegre, mais moderno, mais seguro.

Se preparou. E foi ao encontro dele, que lhe aguardava ansioso, mas como ela sonhara: lindo!

O cumprimento foi natural, mas demonstrando ao que a noite traria...isso animou os instintos dela! Entraram na suíte reservada e como já estava combinado, a música começou logo em seguida. Ainda com o vestido azul de abertura lateral, que deixava a coxa direita à mostra, ela começou um movimento suave, tentando puxá-lo para si...mas ele permaneceu no sofá, atento a cada movimento dela, mesmo os de costas para ele.

Os olhos dele ficaram petrificados no corpo dela...que emoção! Sergio Endrigo encerrou a canção e ela se despede dele com um piscar de olho...ele não compreendia o que ela traria...ansiedade máxima! Mãos suadas! Curiosidade, por que te criaram???

Ela foi rápida e voltou ao ambiente, desta vez no traje surpresa. Os olhos dele...ah, os olhos dele que luz maravilhosa que irradiavam!!! Ele era um misto de encantado, seduzido, apaixonado, maluco, abobalhado, envergonhado de tanta sensação junta no seu corpo...olhava para ela como a pedir...faça de mim, o que quiser que eu não me importarei....

E assim...ao som dos snujs ela foi envolvendo ele e conduzindo-o pelo deserto de um tempo que nunca mais voltará...

Quanto tempo tudo durou? Somente os deuses sabem responder. A beleza marcou o tempo no relógio da vida e fez com que aquela dança sagrada marcasse o destino de cada um deles. Não adianta perguntar o que veio depois. A areia encobriu o futuro para que ninguém consiga desvendar o mistério. Hoje, somente as tumbas conhecem o segredo de ambos.

E a eternidade jurou que acompanhará eles, não permitindo que se afastem da fonte da vida no oásis divino.



terça-feira, 10 de abril de 2012

Desapego ll - (sentimentos)





Buda dizia que um dos pilares que sustenta o sofrimento humano é o apego, ou seja, apego de toda ordem: bens materiais, crenças, mágoas, ressentimentos do passado, perdas de entes queridos, emprego, etc...
Chega a ser medonho o modo como as pessoas praticam o apego sem questionar nem o porque!
A princípio, quando se fala em apego, vem na memória algumas pessoas, mas o termo não está relacionado apenas àqueles que são nossos afetos ou de nossa simples convivência.
Nos apegamos aos sentimentos negativos também e pior: não acreditamos!
Ficamos presos em mágoas, em ressentimentos, em melindres, em medos que insistimos em não deixar irem embora. Chega a parecer que se nos deixarem, não teremos mais em que lamentar, em que culpar!
Enquanto isso o tempo vai passando e vamos seguindo em frente carregando junto esses sentimentos inferiores...
Mas aí, vai ter gente perguntando..."como,eu posso ser assim e ficar apegado em sentimentos baixos deste tipo???"
Ficamos. Pura e simplesmente ficamos.
Estagnamos. Alimentando perdas, que são no fundo, o maior elemento do apego. Quando perdemos, sofremos. E vivemos na lembrança do objeto perdido...que apego miserável!
Perdas para a morte são inevitáveis e altamente dolorosas.
Perdas para a rivalidade são inevitáveis e altamente dolorosas.
Perdas para a falalidade da vida (entenda-se assaltos, afastamentos, separações, etc) não são inevitáveis mas igualmente dolorosas.
Por que o "perder" tem de ser doloroso?
Muitas vezes perdemos o que na verdade nem possuíamos, mas vivíamos na credibilidade da posse e quando batemos com a fuça na parede da realidade, choramos copiosamente a "injustiça" feita.
Esquecemos (ou não queremos) de aceitar que algumas perdas são altamente benéficas, pois abrem caminhos que insistíamos em manter fechados na esperança de um acerto, de um conserto, de uma remenda...de uma ilusão.
É complicado até enxergar que alguns medos, quando perdemos, nos vemos sem rumos...desorientados.
E ficamos inertes, sem saber o que fazer.
É extremamente importante ressaltar diariamente que ninguém é dono de ninguém! Por isso, se alguém se vai por caminhos opostos aos nossos, deixamos as portas abertas para que se um dia quiserem voltar, encontrem o caminho florido e não cheio de espinhos e pedras sujas pelos nossos pensamentos de mágoas, de ódio, etc...
Associo o apego ao egoísmo. Nos apegamos naquilo que queremos somente para nós, sem divisas e o amor verdadeiro não consegue existir nesse círculo vicioso.
Para começar a praticar o desapego é importante analisar o quanto de egoísmo se constrói dentro de si e se faz questão absoluta de manter por perto (grudado mesmo!).
O apego é palco para tantos crimes!!! Para tantas doenças! Para tantos males psíquicos! Para tantas desavenças! Para tantos fins!
Exatamente isso: o apego às vezes é tão grande, que acarreta na perda. Ou seja: o medo de perder era tanto, que perde-se!
E só se perde aquilo que realmente se tem e não aquilo que acreditamos piamente que temos...mas na verdade nunca tivemos por inteiro. Ter pela metade é o mesmo que não ter, encare esta realidade! É dura, mas é sua!
Museu é bom e útil para contar a história de um povo, de uma cultura ou de uma sociedade. Mas fazermos dentro de nós um museu de sentimentos? Não!!!!
Não está conseguindo definir o que seja este "museu de sentimento"? Explico: sabe aquela briguinha que você teve com um amiguinho no jardim de infância e até hoje você remói se culpando por que não quebrou os dentes de leite do filha da puta???? E quando você conta essa história e alguém te fala para esquecer pois já passou muito tempo, o que você responde? "Ah, como eu posso esquecer a dor e a humilhação que passei???"
Olha o apego aí...totalmente de graça!
Quer outro exemplo?
Lembra daquele vestido que você usou na formatura do segundo grau com o qual você dançou com aquele menino adorável? Este vestido não entra mais em você. Está fora de moda. Está ocupando lugar no seu guarda roupa para o que, afinal???? Vai levar para o túmulo???? As minhocas querem carne. Tecidos elas não fazem a mínima questão!
E assim segue a lista interminável de coisinhas pequenininhas que vamos acumulando por dentro e por fora.
Nada de material iremos levar quando formos chamados de volta ao plano espiritual. Se tem utilidade, por que não satisfazer uma pessoa que não tem condições de ter o que você deixa encostado sem uso?
Desta vida, você só vai levar CONHECIMENTO! Aprendizado. Evolução.
Por isso, pratique o desapego e evolua! Deixa ir!
Haverá muito agradecimento em tua volta, te garanto!

autoria: Selma

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Fim de tarde.






Não me diga o que devo fazer.
Não me diga qual caminho devo seguir.
Faço o que preciso, por onde posso e quando Deus permite.
Sou mais uma na multidão, mas não quero ser igual a todo mundo. Por isso, venho em forma de letras ousadas e muitas vezes frias.
Estou no tempo da maturidade que me ajuda a descobrir que em tudo existe algo de novo e de novo e de novo....
Novo no formato. Novo no sabor. Novo pelo prazo de validade.
Sou o que minhas letras permitem me definir, não me importam opiniões, sou do jeito que me fiz aceitar nas mudanças impostas e mostradas por pessoas de carne e osso como eu, mas de alma aleijada e perfil distorcidamente enganoso.
Vivo numa casa montada pelos meus dias de dores, de sorrisos e de feitos manualmente meus.
Sigo em paz, pois não devo aos céus e não me preocupo com o inferno. Eis-o aqui todos os dias a repetir na lista de chamada e com resposta certeira: presente!
O amanhã não me preocupa, pois virá mesmo que eu não queira. Será quente ou gelado mesmo que minha pele esteja coberta ou não para o ar do lugar em que estarei.
Sonho por coisas inatingíveis ao mundo em que pertenço. Objetos e objetivos que fogem da minha realidade como o pão para o abandonado.
Me alimento do que vejo e do que sinto no ritmo dos passos de quem me segue mesmo de longe.
Amo quem me ama, gosto do gosto dos que me chamam de "minha":
- minha mulher, minha menina, minha filha, minha querida, minha mãe, minha amiga, minha musa, minha eterna, minha companheira.
Escrevo por amor à minha saúde, pois através das palavras que deixo como legado, alivio o fardo dos dias que se passam e me que fazem.
Componho ao sol ou debaixo das estrelas, essas sagradas companhias.
Choro a ausência como se fosse ontem, de quem que partiu e não se despediu de mim. Sorrio nas lembranças sempre que ouço as músicas que marcaram momentos de um passado que acena ao futuro.
Passei por várias mudanças ao longo dos meus 40 e poucos anos. Mudanças que me deixaram mais feliz e mudanças que tive de amargar. Mas aceito o que o destino me reserva pois se não tem solução melhor, só pode ser o bem que me empurra para frente.
Vejo filmes para rir e leio o que fôr, mas somente para crescer e me inspirar a alma.
Critico a maldade, a frieza e a indiferença que matam aos poucos, na tortura da injustiça.
Por que é tão difícil me definir se sou tão simples de entender?
Sou capaz de compreender a verdade de cada um, pois limite é uma coisinha especialmente individual.
Ando nas areias, no asfalto, na terra e no olhar de quem eu sei que me quer.
Rezo as minhas orações sem dogmas ordinários e sem a piedade dos santos inválidos.
Peço apenas que os anjos me tragam paz na forma de doces, de sonhos e ameixas que eu tanto amo...






quarta-feira, 4 de abril de 2012

Desapego.









Desapegar parece ser algo impossível para algumas pessoas, para a maioria, é verdade. Custamos para entender que todo ciclo requer movimentação, seja de pessoas ou bens materiais.
No começo a gente imagina se desapegando de objetos de uso pessoal, me parece que este caminho seja o menos complicado, embora não seja. Objetos guardam lembranças, portanto, somos apegados às lembranças também!
Desapegar tem várias maneiras de ser posta em ação. Pode ser uma doação, pode ser jogando no lixo, pode ser deixando de dar importância e pode ser também creditando o selo de "sentimento com prazo vencido".
Difícil!
Todo começo é sempre muito difícil. Mas na continuidade, essa ação se torna vício. Não conseguimos mais parar!
Vamos imaginar aquilo que somos apegados: sapatos, roupas, jóias ou bijouterias, móveis, carros, casas, sentimentos e quem nos conduz aos sentimentos em questão...
Às vezes chega a doer ver os frutos do nosso apego irem embora. Mas nenhuma folha cai da árvore sem o consentimento divino, portanto, chegou a hora da partida mesmo.
Nos apegamos às pessoas. Parentes, amores, amigos, vizinhos, inimigos e as muletas da nossa vida. Aquelas pessoas que só nos servem nos momentos complicados para termos um ombro "amigo" e que na verdade, apenas se deixam vampirizar pelos problemas dos outros na tentativa de ajudar.
Precisamos nos desapegar tanto das pessoas problemáticas, quanto de sermos a muleta dessas pessoas.
Temos necessidade de desapego até de nós mesmos! Pois uma hora partiremos dessa carne e a evolução vai necessitar que não estejamos presos nesta vida. Isso também é desapego.
Precisamos desapegar da falta de educação que nos impede de sermos mais humanos. Muitas vezes usamos a falta de sorte, falta de tempo, falta de condições, falta disso e falta daquilo como desculpas para nos apegarmos em vícios desnecessários, como jogos, pensamentos e desejos constantes que podem ir do bem ao mal.
O desapego trás leveza de alma. É como se em cada doação ou em cada ato de coragem em se desfazer, nos trouxesse paz interior.
Parece impossível, mas é verdade!
A doação é explicada pelo simples fato da caridade em si. Muitos objetos que não nos servem mais mas nos apegamos, podem ser extremamente úteis para os necessitados.
O desfazer de vez, seja pelo lixo ou pela forma de deixar de dar importância, nos deixa abertos e livres para o novo.
Novos conhecimentos, novos caminhos, novas luzes, novas informações, novos aprendizados...
O difícil é só começar, depois não se pára mais.
Se não vira vício, se transforma em costume.
Desapegue-se de tudo o que lhe empaca a vida!
Olhe seu guarda roupas, sua sapateira, seus armários, seus pensamentos, sua vida e observe quantas coisas podem ir embora! Sem falar naquelas que já deveriam ter ido e faltou o tudo que prendia em você.
Desapegue-se da escuridão!
Abra-se para você!
Só não vale se arrepender.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Ela...




Mesmo com o passar do tempo ela ainda se presta a dar atenção aos demais que lhe procuram em busca de uma palavra de paz, de um ombro amigo ou de um conforto.
Não importa a hora, não importa o tempo, não importa para quem. Ela sempre se dispõe por inteira ao diálogo amigo, prestativo.
Sabe que nem sempre as palavras pronunciadas são de sua autoria, mas também não se preocupa em descobrir de onde partem as boas vibrações que emite em prol de terceiros.
Já foi ao ponto de parar dentro de uma igreja ao perceber que olhos aflitos lhe imploravam ajuda. Uma mulher, quase que uma menina, de traços judiados pelo tempo e pela vida, acompanhava seus passos tentando lhe transmitir o pedido de socorro. Ela parou. Ouviu a triste história, sentiu o peso do sofrimento nos ombros e sabia de antemão que não tinha muito a oferecer. Sugeriu alguns modos de ajuda, mas os olhos insistiam em lhe gritar por socorro urgente, o qual ela não tinha como ofertar!
Na esperança de também merecer ajuda, para a imagem de Cristo crucificado e rogou uma luz, se não para ela, que fosse em direção à mulher desesperada.
O problema era comum. Obsessão. Porém, desconhecida pela sofredora que acreditava se tratar de praga rogada por algum desafeto.
Ela tentou explicar um pouco do que entendia e via, que a mulher tentava entender. O brilho de seus olhos ia aos poucos revelando a percepção de que nem tudo estava perdido e havia solução no fim de algum túnel. Restava saber o endereço deste túnel...
E ela também não sabia onde estaria este túnel, mas já lhe satisfazia ver que o desespero nos olhos da mulher havia diminuído. Bastante!
Seu tempo era curto, então não restava outra alternativa a não ser entregar a Deus ali presente aquela mulher com todo seu sofrimento. Hoje, ela ainda pede que Deus não tenha se esquecido daquela criatura desconhecida.
Ela já parou na fila do supermercado para ouvir muitos contarem de seus problemas. Alguns são de fácil trato e talvez até de fácil sugestão. Outros, não resta opção a não ser ignorar e sair de perto. É quando o negativismo domina tanto a pessoa que nada irá lhe remover do sofrimento, que por sinal, se traduz em prazer de sofrer. Difícil de entender...mas ela aprendeu que não adianta insistir com essas pessoas. Melhor deixá-las mergulhadas naquele prazer estranho de alimentar o horror do inferno interno.
Em filas de condução parece pior. As pessoas ficam ansiosas que apareça alguém para dividirem a solidão do dia a dia. Não se dão conta do perigo da abertura com estranhos. Mas ela já se acostumou com isso de ser ímã de gente com problemas....não se assusta mais e procura ajudar no que der.
Já ouviu do mais sadio ao mais insano possível. Nada lhe assusta mesmo!
Alguns são engraçados, conseguem fazer piadas com a dureza da vida. Esses, são seus preferidos! Ela adora um bom humor, um motivo para esticar o rosto num sorriso e quando dá, até mesmo uma sonora gargalhada!
Ela também tem os seus problemas, mas poucos conhecem. Aprendeu que na vida, é injustiça demais se abrir e ver que foi alvo apenas de uma cruel curiosidade. Aprendeu que o mais fiel confidente, é seu próprio travesseiro, que lhe ouve, enxuga suas lágrimas e ainda lhe acolhe no cansaço.
Ela não é mágica, não é santa, não é profissional, não é especial para ninguém, mas muitos lhe apreciam pela santa paciência, pela mágica da possibilidade na transformação do humor alheio. Pela especialidade de ser ouvinte sem ser juíza e pelo estilo profissional de amparar que muitos diplomados desconhecem a simples habilidade.
Ela não sente o peso de cargas derramadas nos seus ombros. Aprendeu que na escravidão, o povo ensinava a aliviar essa energia com luzes de doação espontânea.
A mesma luz que ela sente agora ao escrever este texto.
Sabe que nenhuma palavra caiu aqui por acaso. Ela sabe que tudo na vida tem um "porquê", embora muitas vezes se angustie tanto na esperança de entender algumas coisas sem explicação...
E será que a vida tem explicação? 
Ela olha os mendigos na rua e não entende porque isso ainda existe e até mesmo parece que cresce cada vez mais esse problema social.
Ela olha as crianças nas ruas, perambulando sem rumo e com destino às drogas. Ela sente na pele, mas, o que fazer?
Ela olha os idosos caminhando pelas ruas, na solidão do peso da idade a lhes incorporar. Ela queria merecer a sabedoria de poder morrer antes de ficar velha...
Ela olha o mundo e vê que está tudo certo, o ser humano é que ainda não entendeu,ainda não captou a mensagem divina. Ainda não sabem ao que vieram. Acreditam que tudo isso seja apenas um grande passeio, com direito ao passaporte da diversão com a angústia alheia.
Isso é fácil. Difícil é ouvir...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Humildade.




Em 02 de abril de 1910, nascia Chico Xavier. Não sou de homenagear aniversários de pessoas que já partiram, mas por coincidência, ontem assisti o filme de sua vida e gostei da simplicidade com que foi relatada sua existência entre nós.
O maior legado que Chico nos deixou, creio ter sido a humildade acima de tudo. Mesmo xingado, ofendido, desprezado e incompreendido, ele não se deixava abater e prosseguia na missão que abraçou com muito amor.
Aliás, o amor foi a maior alavanca que ele teve para seguir sempre em frente mesmo diante de obstáculos de toda sorte.
À ele todo meu respeito por seu trabalho. A dedicação com que ele assumiu a responsabilidade com a espiritualidade, foi um imenso exemplo!
Exemplo de coragem, de fé, de confiança em si e ainda o desapego de nunca esperar nada em troca. Nunca esperar nenhuma vantagem sobre seu trabalho. Nunca esperar sequer um agradecimento e sempre ter uma orientação iluminada como resposta.
Um coração destes faz muita falta neste mundo.
Todas suas obras são sucesso como ensinamento.
Me toca a humildade, coisa que muitas vezes é traduzida como burrice, ignorância, tolice, etc...e é exatamente pela humildade que se consegue vencer!
A vida exige humildade! Para reconhecermos nossos erros, pedirmos perdão e perdoar quando é o caso.
Isso não pode ser sinal de ignorância. É luz no caminho!
Perdoar é divino. É renovador. É cristão. É pacificador. É vida nova entrando!
Somente quem se deixou levar pela vibração positiva do perdão, sabe o que quero dizer.
Eu perdoei algumas pessoas. Mesmo sem elas terem se dirigido à minha presença para pedir o perdão, mesmo assim, eu as perdoei no coração. Me fez muito bem!
Penso que só se vive em paz a partir do momento em que se assume o perdoar...porque passa a ser amor em forma de vida.
Creio que um dia isso será uma constante na vida de todos. Um dia...não importa quando. Mas esse dia virá e será uma transformação na chama do coração de cada ser humano.