Reabri a caixa, peguei em cada pano que tinha um traço já planejado, mas que ficou ali, aguardando o tempo, a escolha das miçangas, dos vidrilhos e canutilhos. Ficou um mar de cores de fantasias. Um verdadeiro arco íris guardado na caixa "de Pandora".
A caixa que as vezes transformava um simples molde, num traje belíssimo para uma coreografia nervosamente ensaiada.
Mas o melhor é a lembrança que fica, que sai da mente em busca do passado alegre, feliz de ver o público assistindo meus passos e encerrando a apresentação com os aplausos acompanhados de olhares de diferentes emoções.
Nunca me preocupou a inveja. Nunca. Dancei o que sabia, o que queria, o que esperava de mim.
Muitas vezes, a expressão facial deixava um ar de exagero da emoção, porque era o momento em que a alma passava na frente e se fazia presente. A alma da odalisca de vermelho que vinha lá de trás, do deserto, somente para poder aproveitar um pouco do clima e da vibração de vida que eu dava para aquela bailarina.
A minha bailarina. Somente minha. Tão eu.
Eu reconhecia o nome dela no momento em que ela se apossava do meu espaço dentro da música geralmente árabe ou egípcia. Os acordes despertavam os sentidos dela que vinha como se estivesse flutuando e fazia o seu papel: o da inspiração.
A bailarina que ficava horas lustrando seus snujs, para que eles aparentassem suas mãos delicadas, pois o som se disfarçava entre os panos, os perfumes e os olhares...não fazia questão de ser importante ali.
Essa bailarina que muitas vezes dançou com os pés doendo de medo de cair entre o público. Dançou com dores de cabeça por ter se esquecido da alimentação. Ora, quem disse que a bailarina precisava de refeição?
O prazer da sua dança alimentava seu corpo por muitos dias, por tantos que era capaz de sair do palco e ir direto para seu exílio no deserto em busca apenas de leveza, de paz, de esperanças, do amigo sol.
Não complicava a vida se não tivesse um ponto perfeito no cinturão. Seu quadril era adaptado ao ritmo sem compromisso de acertos. Simplesmente ia. E fazia o que era lhe pedido.
Não temia o tempo, de forma alguma!
Na chuva, bailava lavando o sorriso que ostentava. No calor, delirava em gotas de suor.
Mas sempre oscilando nas notas e encontros das notas musicais com os passos na direção da sua satisfação de ser mulher.
Todo o ritual começava muito antes!
Era o dormir, já com a mente voltada para o dia seguinte, pedindo proteção ao seu anjo e ao universo para que tudo corresse bem.
No acordar, um agradecimento pela oportunidade de mais um espetáculo.
Um banho em estilo sagrado para preparar corpo, alma e sensualidade em forma de deusa para um show que ficasse em sua memória.
A maquiagem de minha própria autoria, meus retoques para melhorar o visual, tudo como eu sabia fazer.
E saia sempre bom!
Vestir a fantasia é um prazer sem título!
O que faz uma bailarina, é exatamente este instante: o de vestir seu traje que muitas vezes espeta, machuca, aperta, incomoda, mas que deixa a gente em estado de graça.........porque dali, sai uma figura que não pertence ao mundo daqui e sim, ao da maravilhosa arte da dança do ventre.
Assim, eu fui feliz e me fiz feliz: dançando.

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