Não quero mãos frias para secarem minhas lágrimas,
não quero tecidos finos para fingir que me acariciam o rosto,
não quero tempo quente para disfarçar a frieza que me sustenta,
não quero gente falsa ao meu lado para me apoiar.
Não quero luz de vela, cadeira de restaurante, som de violino, perfume de passado.
Não quero sair pelas ruas em vão, em busca de mim que não sei por onde passei que me deixei ficar. Não quero escrever minhas linhas tortas pelas suas mãos, meu destino sem virada de ano, não quero meus vestidos no seu armário em formato de túmulo.
Não quero meu eu mendingando por tudo o que mais quis, por tudo o que vi, por tudo o que fiz.
Não quero minha ilusão de volta, não quero que ela se torne realidade de um segundo apenas, não quero minha insanidade perambulando pela minha alma a minha procura.
Não quero certezas, nem verdades, as mais duras e as mais certas.
Não quero enxergar o mato que se fecha diante de meus olhos, enterrando meus ossos doloridos de tanto pedir por socorro.
Não quero química. Não quero soro. Não quero cheiro de hospital. Não quero assinar meu atestado de óbito dia a dia.
Não quero saber que o mundo ainda tem vida, pois a minha se perdeu no universo atrás de estrelas que nunca nascerão.
Não quero o encanto de magias e doutrinas falsas, que me profetizam mentiras de ídolos inexistentes, impiedodos, enganadores, fiéis de um deus traiçoeiro.
Não quero mais fé. Não quero acreditar em nada que me faça voltar atrás.
Não quero asfaltos que me carreguem por estradas esburacadas e estreitas.
Não quero mais nada, pois tudo o que investi, perdi. Desacreditei de tudo, de mim, de todos.
Não quero a terra para me abrigar, não quero o fogo para me desativar, não quero o sumiço por nada.
O que eu quero é tão simples...
Porque tem dias que tudo é fácil! Tudo é lindo, tudo é bom! Mas tem dias, que a morte ronda sem dó nem piedade, porque ela não conhece o que seja a dor de saber que não tem volta para quem já se foi de vez...
Tem dias que um abraço é tudo e muito mais! Tem dias que faltam lágrimas para contarem histórias que ficaram perdidas no tempo. Sem explicação, sem uma cura, sem uma palavra.
Porque tem dias que eu sinto a vida, mas tem dias que eu sinto um cheiro de osso enterrado. E este osso clama por um aviso, por um algo, por uma letra apenas...
Porque tem dias que se percebe que o fim chegou mas não deixa ativar a célula que desencadeia a evolução necessária. E ai, tudo fica na inércia, no espaço entre uma estrela e outra, sem baterem e sem se entenderem.
Porque tem dias que o poço fica fundo demais e úmido ao extremo para que um humano possa sobreviver ali. Mas é onde eu estou...é onde eu espero minha libertação. É onde eu penso que talvez um ser sagrado (que não existe mais) venha me resgatar.
Perdi tudo em nome de não sei o que...não reconheço aquilo que eu nomeava de fé. Aquilo que eu lutava com unhas e dentes para poder aplicar e praticar, mesmo contra alguns pois era a favor de muitos...que muitos? Nenhum...nenhum favorecido no fim. Porque tudo era mentira para que se pudesse acreditar que tinha de ser assim, de continuar...continuar pra que? Por que?
Por um simples ego de um deus que hoje eu faço o favor de renegar impiedosamente. Da mesma forma como ele me jogou fora daquele livro que as pessoas costumam chamar de história do nascimento da vida.
E hoje, eu sigo, porque ainda tenho uns passos em falso para dar fim em rastros que ninguém vai precisar tomar conhecimento...eram meus. Apenas meus.
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