Não posso dizer que foi prazeroso.
Entendi de perto o que seja o tal "momento sinisto". O trem cheio, em noite fria, de repente pára entre uma estação e outra com todas as luzes se apagando...eis o pavor se aproximando.
O que iria acontecer?
Sofro de ansiedade há muitos anos, costumo dizer que nasci com ela grudada na pele, era minha primeira tatuagem disfarçada. Me cuido, mas chega uma hora que você aprende que medicamentos te ajudam, mas o que faz diferença mesmo é você mudar e se controlar na marra.
Quem já teve crise de pânico, sabe que a sensação é pavorosa! Você consegue descer ao nível de sentir ele vindo, a passos de lesma na sua direção...até que te domina.
O lance do bom tratamento do pânico não é se medicar apenas, mas sim, aprender o domínio do pânico em si, ou seja, não deixar ele passar na frente e fazer a festa!
Isso eu aprendi com respiração. Mas a danada da ansiedade...essa as vezes me rói por dentro!
Muito mais dificil de controlar, já que ela tem vida própria, necessitando com urgência do futuro.
Naquele instante eu fechei os olhos e quando abri, percebi que a escuridão havia sido rápida. Tão rápida que nem fez muita diferença.
Umas senhoras que estavam sentadas na minha frente se entreolharam e soltaram um fatídico comentário: "pronto, já começou..."
Como, já começou?
Então isso acontece todos os dias?
Tá. Verdade seja dita, o transporte sobre trilhos em SP está caindo como bêbado em reveillon: aos montes!
Todos os dias temos notícias de que a linha tal hoje teve problemas. No outro dia, é outra linha. Um dia metrô, no outro CPTM.
O caos generalizado é uma afronta a qualquer equilíbrio mental e psicológico que se possa tentar ter.
Mas me volto ao instante do trem parando...mil coisas se passavam diretamente pela minha cabeça e tudo ao mesmo tempo.
Vamos ter de descer aqui? Na chuva? No frio? Estamos entre uma estação e outra, será que é vantagem ir para frente ou voltar? Como vou descer deste trem?
Lembrei que minhas botas não tinham salto! Melhor assim, pelo menos não seria complicado caminhar entre as pedras.
Será que vão quebrar o trem? Morro de medo de vandalismo, de brigas, de ficar junto de pessoas nervosas por muito tempo. Nunca sei o que fazer, se consolo ou se deixo a pessoa se analisar e dissolver o nervosismo por si. Claro que existem casos e casos.
Tudo isto, toda esta experiência que acabou bem, cheguei sã e salva na estação que precisava descer (3 após), me fez ver o quanto as pessoas são reféns de um sistema, de uma condição social que é tão desprezada!
Com certeza, a grande maioria voltava do trabalho, onde buscam uma qualidade de vida melhor e, não sendo suficiente, ainda precisam se ver as voltas com obstáculos que não deveriam de forma alguma ser realidade diária.
Pessoas de idades diferentes ao meu redor. Expressões diferentes. Comportamentos diferentes. Mas unidas num vagão prestes a enguiçar, o que com certeza, lhes enguiçaria o restante da noite que poderia ser fria, mas em paz para relaxar e esperar o trabalho do dia seguinte.
Sinistra é esta vida...

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