terça-feira, 26 de junho de 2012

Beautiful Death










Por que a descoberta de uma doença precisa necessariamente ter de ser tão inconveniente? Não poderíamos dar uma festa, com direito a bolo, presentes e bebidas?
lógico que poderíamos e podemos! Afinal, é o momento fatídico que você se dá conta de que a passagem de ida já está disponível e o avião já está saindo do hangar para te buscar.
Penso na poltrona que usarei...espero ser bem confortável e que seja azul, da cor do mar e do céu. Eu sei que não irei para lá, não tenho espaço reservado. Aliás, por várias vezes assinei em vida o recibo de que me livraria do céu em troca de algumas coisitas mas...más.
Meu passaporte é por conta de terceiros. Não preciso me preocupar com isso mesmo, pois nem irei ve-lo.
Minha roupa...gostaria de deixar uma reservada, mas não sei se vão querer me enterrar vestida à minha maneira. Nem meus órgãos que tanto batalhei para doar, creio que serão possíveis de irem dar vida para alguém. Embora, se forem levando algum resquício desta minha passagem, eu faço questão de que sejam devidamente cremados e jogados em algum lixão.
Morbidez?
Baixo astral?
Depressão?
Não, não.
Caiu a ficha, gente! Só isso.
Depois de anos e anos lutando em silêncio contra algo que me incomodava, descubro que os diversos tratamentos "religiosos" que fiz não me trouxeram nada, não me reverteram em nada além de tempo perdido e tempo esticado não sei pra que.
Enfim, todos sabem que um dia a morte chega, quando é que ninguém quer saber, né? Também não faço questão de saber horário. Que seja de surpresa como geralmente as coisas aconteceram para mim.
A liberdade de saber que se chega no patamar do vencimento é uma sensação meio estranha,mas legal. Sim, legal.
Tá na hora de deixar de hipocrisia, porque todo mundo treme nas bases quando pensa que um dia vai morrer!
A pessoa que eu mais queria do meu lado, se foi...outros que eu queria do meu lado, se foram também...alguns pela morte, outros pela morte da sabedoria...ambos dispensam a mesma dor e quem se importa?
Não quero flores. Não quero hinos. Não quero choros. Não quero tristeza, pelo amor de alguém!!!! Não chorem por quem parte feliz da vida porque vê que tudo, mas tudo mesmo, acabou!!!!!!!!!!!
É preferível.
Saudade, eu só queria deixar num coração. Mas ele não existe...
Ao mundo,meu muito obrigado. Não sei quando sai o vôo, mas já deixo minha despedida adiantada para não reclamarem que não avisei.
Eu avisei, héin!

A Arte da Dança











Revejo meus tecidos, meus cortes inacabados das fantasias que se perderam no tempo. Agulhas, linhas, brocados e lantejoulas misturados na caixa de madeira guardada dentro do armário. Bem lá no fundinho, pra ninguém notar...nem eu.
Reabri a caixa, peguei em cada pano que tinha um traço já planejado, mas que ficou ali, aguardando o tempo, a escolha das miçangas, dos vidrilhos e canutilhos. Ficou um mar de cores de fantasias. Um verdadeiro arco íris guardado na caixa "de Pandora".
A caixa que as vezes transformava um simples molde, num traje belíssimo para uma coreografia nervosamente ensaiada.
Mas o melhor é a lembrança que fica, que sai da mente em busca do passado alegre, feliz de ver o público assistindo meus passos e encerrando a apresentação com os aplausos acompanhados de olhares de diferentes emoções.
Nunca me preocupou a inveja. Nunca. Dancei o que sabia, o que queria, o que esperava de mim.
Muitas vezes, a expressão facial deixava um ar de exagero da emoção, porque era o momento em que a alma passava na frente e se fazia presente. A alma da odalisca de vermelho que vinha lá de trás, do deserto, somente para poder aproveitar um pouco do clima e da vibração de vida que eu dava para aquela bailarina.
A minha bailarina. Somente minha. Tão eu.
Eu reconhecia o nome dela no momento em que ela se apossava do meu espaço dentro da música geralmente árabe ou egípcia. Os acordes despertavam os sentidos dela que vinha como se estivesse flutuando e fazia o seu papel: o da inspiração.
A bailarina que ficava horas lustrando seus snujs, para que eles aparentassem suas mãos delicadas, pois o som se disfarçava entre os panos, os perfumes e os olhares...não fazia questão de ser importante ali.
Essa bailarina que muitas vezes dançou com os pés doendo de medo de cair entre o público. Dançou com dores de cabeça por ter se esquecido da alimentação. Ora, quem disse que a bailarina precisava de refeição?
O prazer da sua dança alimentava seu corpo por muitos dias, por tantos que era capaz de sair do palco e ir direto para seu exílio no deserto em busca apenas de leveza, de paz, de esperanças, do amigo sol.
Não complicava a vida se não tivesse um ponto perfeito no cinturão. Seu quadril era adaptado ao ritmo sem compromisso de acertos. Simplesmente ia. E fazia o que era lhe pedido.
Não temia o tempo, de forma alguma!
Na chuva, bailava lavando o sorriso que ostentava. No calor, delirava em gotas de suor.
Mas sempre oscilando nas notas e encontros das notas musicais com os passos na direção da sua satisfação de ser mulher.
Todo o ritual começava muito antes!
Era o dormir, já com a mente voltada para o dia seguinte, pedindo proteção ao seu anjo e ao universo para que tudo corresse bem.
No acordar, um agradecimento pela oportunidade de mais um espetáculo.
Um banho em estilo sagrado para preparar corpo, alma e sensualidade em forma de deusa para um show que ficasse em sua memória.
A maquiagem de minha própria autoria, meus retoques para melhorar o visual, tudo como eu sabia fazer.
E saia sempre bom!
Vestir a fantasia é um prazer sem título!
O que faz uma bailarina, é exatamente este instante: o de vestir seu traje que muitas vezes espeta, machuca, aperta, incomoda, mas que deixa a gente em estado de graça.........porque dali, sai uma figura que não pertence ao mundo daqui e sim, ao da maravilhosa arte da dança do ventre.

Assim, eu fui feliz e me fiz feliz: dançando.

Velhice.









A autora é uma sábia que se recolheu ao anonimato.







VELHICE FEMININA


Peço a compreensão das amigas politicamente corretas e a contribuição das cínicas inveteradas, como eu. Desculpem, gostaria de ser uma "doce sessentona" convencida de que a velhice é um estado de espírito mas a vida me prova o contrário. Além do mais, se quiserem ler crônicas otimistas, Martha Medeiros e Lya Luft estão aí prá isso. Meu negócio é rir!!
Para não ficar uma velha “sem noção”, é fruto do meu profundo interesse olhar pela velhice e pelo bem estar da sociedade. (Eu podia ter organizado os lembretes por “família, trabalho, lazer, higiene e saúde” mas decidi já ir me acostumando com o estado de confusão mental provável e deixar a tarefa de me fazer entender para os mais jovens).
Acho bom ler e levar a sério, principalmente as coisas que parecem mais desagradáveis. Como tou ficando velha, é capaz de receber e-mail com este texto, dizendo que foi escrito por Luis Fernando Verissimo e nem lembrar que fui eu que escrevi:
1. Aceite a velhice, recuse metáforas. “Terceira idade”, “melhor idade” é a p*#@* q*#@ *#riu!!!. Ser velha não é crime, é apenas constrangedor e a última sacanagem que o Criador comete contra nós.
2. Viva com inteligência o tempo de vida útil que lhe resta. Viva a sua vida, não a dos seus filhos, netos e/ou marido (se é que ainda há algo que possa ser chamado disso). Tenha seus próprios interesses e projetos. Ainda se tem direito aos sonhos. Aliás, em breve teremos direito só aos sonhos.
3. Coma menos, beba menos e fale menos. Velhas magras, sóbrias e contemplativas são menos doentes e chatas.
4. Poupe seus familiares e amigos (para aquelas que ainda tem alguns) de conversas sobre o passado, doenças e dinheiro. Estes assuntos devem ser tratados, só e somente só, com seu psicoterapeuta. Em caso de emergência, a exceção é aquela sua amiga que já teve dois AVC’s e não tem condições de reagir.
5. Não aborreça ninguém com os relatórios das suas viagens. As viagens de velhas são interessantes só pra elas mesmas. Aprenda a ser concisa, comente apenas o destino e a duração da viagem. Se por algum milagre, alguém perguntar mais alguma coisa, procure responder com monossílabos.
6. Escolha um bom médico. Ele, sim, vai ser seu pai, irmão, marido e amigo querido. Não se utomedique. Não há nada mais irritante do que velha metida a curandeira.
7. Não arrisque cirurgias plásticas rejuvenescedoras. A chance de ficar mais feia é altíssima e a de ficar mais jovem é baixíssima.
8. Use seu dinheiro com critério. Gaste em coisas importantes e evite economizar demais. Para que deixar herança para noras e genros que mal lhe aturam ou sobrinhos e netos que mal lhe conhecem?
9. Velhice não nos dá o direito de ser mal educadas. Nada de falar de boca cheia, emitir sons e odores indesejáveis, cutucar dentes, etc.. Atenção redobrada se você já não era nenhuma dama na juventude. Casca grossa só piora depois de senil.
10. Faça uma guerra sem descanso aos farelos que insistem em se alojar nos cantos da sua boca (nos velhos, eles preferem o queixo). Você notou que tem sempre um filho de plantão passando um guardanapo na boca das mães velhas?!!
11. Só masque chiclete na ausência de testemunhas. Não corra o risco de acharem que você já está ruminando ou falando sozinha.
12. Pense muitas vezes antes de se aposentar. Trabalhar tem muitas vantagens, além do dinheiro. A principal delas é para sua família: são seus colegas de trabalho que vão ter que lhe aguentar a maior parte do tempo.
13. Cuidado com a nostalgia e o otimismo. Velhas tristes são chatíssimas. Velhas alegres demais, mais ainda. Não se ofereça para ir a carnaval fora de época com seus sobrinhos. Fora de época, é você. Não tenha certeza de que vai ser uma companhia agradável em acampamentos, raves e shows de rock. Um ataque cardíaco pode acabar com a festa de todo mundo.
14. Se foi mística, esotérica ou engajada na juventude, controle-se. As pessoas lhe aguentavam quando os hormônios estavam a seu favor, agora elas podem querer realizar o desejo de matá-la que tinham no passado, para acabar com a tortura das suas pregações.
15. Leia muito. Ainda há tempo para gostar de aprender. Velhice pode trazer experiência, não sabedoria. Ter um livro sempre à mão também serve para o caso de sua surdez não permitir acompanhar a conversa. Todos vão adorar não ter que repetir aos gritos respostas a perguntas “sem noção”.
16. Tenha o máximo de cuidado com a higiene. Velha fedida é duro de aguentar. Ah, cheirando a perfume francês vencido, também.
17. Não acredite nas colegas otimistas que dizem que não tem nada demais em usar minissaias, fio dental, figurinos sadomasoquistas ou decotes provocantes. Tem sim, eles provocam atentado à estética. E riso descontrolável, também.
18. Cuidado com a maquiagem. Já notou que velhas vão ficando parecidas com velhos e ambos com travestis? Maquiagem pesada só serve para reforçar o personagem.
19. Seja avó do seus netos, não mãe ou babá. Por isso nem pense em educá-los ou em comprometer seu tempo com as tarefas chatas de ir buscar na escola, festinhas, natação, inglês, etc.. Ser folguista de babá, nem pensar!!! Se a sua nora for chata, esta é a chance perfeita de sacaneá-la, deixando que ela faça sua obrigação de mãe. Não tenha remorso, por mais que você se esforce nunca vai conseguir sacaneá-la mais do que ela a você. Lembre-se de que agora seu filho deve obediência a ela e não mais a você.
20. Se alguém perguntar como vão seus netos, não precisa contar tuuuuuuuudo! Evite discorrer sobre sua (deles, óbvio!!) inteligência excepcional, beleza rara, fantásticas habilidades esportivas e genialidade com a tecnologia. Lamento informar que todos eles são iguais e assim, agora.
21. Não seja uma sogra chata, gratuitamente. Só se tiver um bom motivo. Lembre-se de como era a sua (ou as suas) e passe a limpo. Agora que você já sacou que não tem como mudar seu marido, cuidado para não apontar as armas para as noras e genros. Falar mal deste tipo de gente é deplorável. Se tiver genro, dê sempre razão a ele, se sua filha for um pé no saco. Lembre-se que, para implicar com ela, ele vai sempre lhe defender quando ela comentar como você é chata, controladora, antiquada, desinformada, espaçosa, blá, blá....
22. Seja machista. Ainda é tempo. Caímos no conto do feminismo e nos lascamos.
23. Nunca, nunca, nunca mesmo, visite seus filhos sem que seja convidada, pelo menos 3 vezes.
24. Cuidado ao atender o telefone. Se responder “Estou levando a vida como Deus quer”, quando lhe perguntarem “Como vai?”. Isto pode provocar um problema irreversível na sua linha telefônica, ela pode ficar muda por semanas. Você vai ver que as ligações dos amigos e filhos vão rarear, cada vez mais. Se quiser que a linha dê um “tilt” para sempre, pode responder aos seus filhos com a simpática frase: “Ah, lembrou que tem mãe?”. Mesmo que eles lembrem, vai ser difícil telefonar prá você.
Esta lista pode ser usada como teste (mulheres adoram testes) para saber seu grau de “sem-noçãozice”. Mas se você for chata mesmo, pode aplicar nas suas amigas. Não confesso meu grau, nem sob tortura. Mas confesso que já fiz alguns estudos de caso. Acredito piamente que vaso ruim não quebra e tento ficar cada dia pior. Afinal velha é que nem palhaço, se alegra vendo o circo pegar fogo.
Se não mandar e quebrar a corrente, o castigo vem na hora, porque velha decrépita é alvo fácil até para corrente imbecil. Salvem o planeta e passem adiante!

Não valeu a pena.

Não quero mãos frias para secarem minhas lágrimas,
não quero tecidos finos para fingir que me acariciam o rosto,
não quero tempo quente para disfarçar a frieza que me sustenta,
não quero gente falsa ao meu lado para me apoiar.
Não quero luz de vela, cadeira de restaurante, som de violino, perfume de passado.
Não quero sair pelas ruas em vão, em busca de mim que não sei por onde passei que me deixei ficar. Não quero escrever minhas linhas tortas pelas suas mãos, meu destino sem virada de ano, não quero meus vestidos no seu armário em formato de túmulo.
Não quero meu eu mendingando por tudo o que mais quis, por tudo o que vi, por tudo o que fiz.
Não quero minha ilusão de volta, não quero que ela se torne realidade de um segundo apenas, não quero minha insanidade perambulando pela minha alma a minha procura.
Não quero certezas, nem verdades, as mais duras e as mais certas.
Não quero enxergar o mato que se fecha diante de meus olhos, enterrando meus ossos doloridos de tanto pedir por socorro.
Não quero química. Não quero soro. Não quero cheiro de hospital. Não quero assinar meu atestado de óbito dia a dia.
Não quero saber que o mundo ainda tem vida, pois a minha se perdeu no universo atrás de estrelas que nunca nascerão.
Não quero o encanto de magias e doutrinas falsas, que me profetizam mentiras de ídolos inexistentes, impiedodos, enganadores, fiéis de um deus traiçoeiro.
Não quero mais fé. Não quero acreditar em nada que me faça voltar atrás.
Não quero asfaltos que me carreguem por estradas esburacadas e estreitas.
Não quero mais nada, pois tudo o que investi, perdi. Desacreditei de tudo, de mim, de todos.
Não quero a terra para me abrigar, não quero o fogo para me desativar, não quero o sumiço por nada.
O que eu quero é tão simples...


Porque tem dias que tudo é fácil! Tudo é lindo, tudo é bom! Mas tem dias, que a morte ronda sem dó nem piedade, porque ela não conhece o que seja a dor de saber que não tem volta para quem já se foi de vez...
Tem dias que um abraço é tudo e muito mais! Tem dias que faltam lágrimas para contarem histórias que ficaram perdidas no tempo. Sem explicação, sem uma cura, sem uma palavra.
Porque tem dias que eu sinto a vida, mas tem dias que eu sinto um cheiro de osso enterrado. E este osso clama por um aviso, por um algo, por uma letra apenas...
Porque tem dias que se percebe que o fim chegou mas não deixa ativar a célula que desencadeia a evolução necessária. E ai, tudo fica na inércia, no espaço entre uma estrela e outra, sem baterem e sem se entenderem.
Porque tem dias que o poço fica fundo demais e úmido ao extremo para que um humano possa sobreviver ali. Mas é onde eu estou...é onde eu espero minha libertação. É onde eu penso que talvez um ser sagrado (que não existe mais) venha me resgatar.
Perdi tudo em nome de não sei o que...não reconheço aquilo que eu nomeava de fé. Aquilo que eu lutava com unhas e dentes para poder aplicar e praticar, mesmo contra alguns pois era a favor de muitos...que muitos? Nenhum...nenhum favorecido no fim. Porque tudo era mentira para que se pudesse acreditar que tinha de ser assim, de continuar...continuar pra que? Por que?
 Por um simples ego de um deus que hoje eu faço o favor de renegar impiedosamente. Da mesma forma como ele me jogou fora daquele livro que as pessoas costumam chamar de história do nascimento da vida.
 E hoje, eu sigo, porque ainda tenho uns passos em falso para dar fim em rastros que ninguém vai precisar tomar conhecimento...eram meus. Apenas meus.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O tempo e a morte.

Por que algumas vezes não conseguimos ultrapassar as maiores barreiras de obstáculos que se adentram por nossas víceras e se acomodam dispostas a nunca mais sairem?
Certas dores nunca nos abandonam, são como paredes das nossas residências invisíveis que o cérebro fabrica em troca dos lugares comuns que andamos todos os dias em busca de algo, que no fundo nem sabemos do que se trata...se converte em alguém, se conforma em palavras vazias, se confunde com versos soltos nas sarjetas alagadas de lágrimas que nunca secarão pelas mãos de quem se foi para sempre.
Olhos que enxergam a rua do outro lado, mas não diferem caminhos suaves, floridos, incorporados de saúde, de paz, de alegria na alma e no corpo para vivenciar os dias e dormir as noites esquecidas.
Sonhos que se partem tal como vidro atingido por uma bala perdida, direcionada ao nosso eu, ao nosso mais profundo ser, a nossa intimidade de tentar ter um mínimo de vida, de luz, de sentido.
As neblinas de todos os dias estão tirando a visão do futuro...todas as esquinas se tornaram iguais, sem setas ou placas que contribuem para uma esperança.
Não há mais nada...tudo se foi, enquanto se esperava por algo maior. Veio um vento e levou tudo embora de uma vez só. Nem deu tempo de segurar o que ainda estava dentro do prazo de validade. Sacudiu tudo. Tirou tudo dos lugares e desarrumou a casa dos pensamentos. Não sei por onde começar a procurar tudo de novo...será que encontrei parte do que se foi? E aquilo que me levaram? Cadê a justiça que eu tanto ouvi e nunca vi ser feita? Cadê? Cadê? Cadê? Eu preciso disso para o ano passado!
Não quero ir embora junto com a terra sem antes conseguir este feito. E cadê minha coragem de sair em busca dele, nem que seja aos gritos de guerra, atrás do que eu quero? Minha paz...por que? O que faço com tanto vazio por dentro? Como desfaço destes nós que me prendi enquanto acreditava que eram verdadeiros?
As coisas voam porque o tempo não dá pausa para se diferenciar o certo do errado. Simplesmente acontece e fim. Fim mesmo. Fim que derruba. Fim que destrói. Fim que enterra uma vida por conta de uma...como chamar isso que mais cheira a egoísmo puro? Não tem nome. Meu sofrimento não teve nome, não foi batizado porque a piedade não permitiu. Ela foi sagaz e cruel ao mesmo tempo, me punindo por algo que minha culpa não me avisou sobre o tamanho do estrago.
Nem eu sabia onde iria parar tanta dor...pudesse voltar no tempo, voltaria no meu nascimento para evitá-lo naquele lugar...daquele jeito...para não fazer sofrer os que machuquei acreditando que me encontrava...
Sei que não adianta chorar, não adianta pedir, nao adianta implorar misericórdia porque é tarde demais. Me viciei e me contaminei por uma faceta tão desprezível. Sei que o tempo não retorna, mas o que eu mais queria era que ele explodisse em mim e levasse embora tudo e todos.
Que não ficasse pedra sobre pedra.
Que não ficasse passo atrás de passo.
Que não ficasse o olhar perdido no olhar vencido...
O que me resta escrever é o saber que me impregnou depois de tudo. Descrever o quanto chorei, não me lavará a alma doente de sentimentos nobres que o ódio transformou em flores.
Fiquei aqui...só. Observando o que joguei fora em nome do que nem sei o que este idioma traduz. Meu português não conhece essas vírgulas cheias de curvas pontiagudas feitas para serem lançadas em nome da morte. Meu eu, conhecia, mas fingia que não sabia que existia.
Isso foi até o dia...todos sabem qual foi o dia. Sabem o cheiro da chuva que molhou o asfalto da minha volta para casa, da minha ida em direção ao calabouço onde ao algoz demôníaco me aguardava para arrebatar de vez o que me restava de saúde.
Agora, terei de enfrentar as máquinas da tecnologia para que isso possa ser extraído, ao menos por partes. E quem sabe, ainda me dê de graça alguns dias de ar puro para relaxar na natureza morta dos meus quadros na parede do meu quarto vazio...
A janela aberta só permite a entrada do vento frio, para me fazer lembrar o que espalhei com minha respiração ofegante...
Não posso mais tentar extrair mais nada de mim. Tudo o que ainda restava, foi-se embora para nunca mais voltar...talvez em alguma outra encarnação, se reencontre, mas eu, decididamente não gostaria que isso acontecesse. Tive essa como a úlitma encarnação para aceitação dessas dores deficientes. Do não que fica disfarçado entre risos e deboches, mas que eu reconheço como sendo o mais duro desprezo.
Não pedi por isso. Definitivamente, não pedi.
Não merecia por isso. Definitivamente, me entreguei para não merecer a dor que veio.
Não tem nada, não...o rio vai levar para o fundo do mar, meus restos e tudo o que me matou aos poucos... porque a morte ainda vai me doer por um bom tempo. Eu sei que vai. Não é questão de não querer aceitar ou precisar exorcizar o sofrimento. É aprendizado. É lição na carne. Faça hoje, enquanto há tempo, porque amanhã...não necessariamente existirá aqui.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Instante Sinistro





Dizem que nunca é tarde para se viver uma experiência diferente. Quanto mais o tempo passa, melhor aproveitaremos essa oportunidade.
Não posso dizer que foi prazeroso.
Entendi de perto o que seja o tal "momento sinisto". O trem cheio, em noite fria, de repente pára entre uma estação e outra com todas as luzes se apagando...eis o pavor se aproximando.
O que iria acontecer?
Sofro de ansiedade há muitos anos, costumo dizer que nasci com ela grudada na pele, era minha primeira tatuagem disfarçada. Me cuido, mas chega uma hora que você aprende que medicamentos te ajudam, mas o que faz diferença mesmo é você mudar e se controlar na marra.
Quem já teve crise de pânico, sabe que a sensação é pavorosa! Você consegue descer ao nível de sentir ele vindo, a passos de lesma na sua direção...até que te domina.
O lance do bom tratamento do pânico não é se medicar apenas, mas sim, aprender o domínio do pânico em si, ou seja, não deixar ele passar na frente e fazer a festa!
Isso eu aprendi com respiração. Mas a danada da ansiedade...essa as vezes me rói por dentro!
Muito mais dificil de controlar, já que ela tem vida própria, necessitando com urgência do futuro.
Naquele instante eu fechei os olhos e quando abri, percebi que a escuridão havia sido rápida. Tão rápida que nem fez muita diferença.
Umas senhoras que estavam sentadas na minha frente se entreolharam e soltaram um fatídico comentário: "pronto, já começou..."
Como, já começou?
Então isso acontece todos os dias?
Tá. Verdade seja dita, o transporte sobre trilhos em SP está caindo como bêbado em reveillon: aos montes!
Todos os dias temos notícias de que a linha tal hoje teve problemas. No outro dia, é outra linha. Um dia metrô, no outro CPTM.
O caos generalizado é uma afronta a qualquer equilíbrio mental e psicológico que se possa tentar ter.
Mas me volto ao instante do trem parando...mil coisas se passavam diretamente pela minha cabeça e tudo ao mesmo tempo.
Vamos ter de descer aqui? Na chuva? No frio? Estamos entre uma estação e outra, será que é vantagem ir para frente ou voltar? Como vou descer deste trem?
Lembrei que minhas botas não tinham salto! Melhor assim, pelo menos não seria complicado caminhar entre as pedras.
Será que vão quebrar o trem? Morro de medo de vandalismo, de brigas, de ficar junto de pessoas nervosas por muito tempo. Nunca sei o que fazer, se consolo ou se deixo a pessoa se analisar e dissolver o nervosismo por si. Claro que existem casos e casos.
Tudo isto, toda esta experiência que acabou bem, cheguei sã e salva na estação que precisava descer (3 após), me fez ver o quanto as pessoas são reféns de um sistema, de uma condição social que é tão desprezada!
Com certeza, a grande maioria voltava do trabalho, onde buscam uma qualidade de vida melhor e, não sendo suficiente, ainda precisam se ver as voltas com obstáculos que não deveriam de forma alguma ser realidade diária.
Pessoas de idades diferentes ao meu redor. Expressões diferentes. Comportamentos diferentes. Mas unidas num vagão prestes a enguiçar, o que com certeza, lhes enguiçaria o restante da noite que poderia ser fria, mas em paz para relaxar e esperar o trabalho do dia seguinte.
Sinistra é esta vida...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Jardim, assim, enfim.






Uma sala no jardim, uma escada feita por mim,
sala aberta sem grade, com muita graça,
na sacada muitas flores, igual naquela praça,
muita sensibilidade, muitas cores,
muito eu e muito você.

Degraus prontos para subirmos juntos
os caminhos enquanto trocamos os assuntos,
desviamos o destino, ensinamos os anjos o encanto,
da terra que pisamos, da terra que conhecemos,
da terra que sonhamos, da terra onde nos aquecemos.

Não deixei espaços vagos para não pisarmos em falso
e podermos andar sempre descalços no encalço
da luz que viesse do sol e aromatizasse nosso lençol,
nossa cama, essa gama
de fazer suor, fazer aparecer, fazer sermos um só nó em cada ser.

Ao lado, o banco à espera,
dos nossos passos,
em ritmo de primavera,
o seu e o meu braço,
unindo e formando o abraço,
que era
tudo o mais, assim...